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domingo, 11 de janeiro de 2009

PierreLevy








Pierre Lévy Correio
University of Ottawa, Ottawa, Canadá
Curriculum Vitae

Site currículo http://www.reciis.cict.fiocruz.br/index.php/reciis/about/editorialTeamBio/43

http://www.reciis.cict.fiocruz.br/novos_arquivos/plevy@uottawa.ca.pdf

From: levy @ neuropelab.unige.ch

e mail : levy@globenet.org

É um filósofo que dedicou sua vida profissional ao entendimento das implicações culturais e cognitivas das tecnologias digitais promovendo o seu melhor uso social e ao estudo do fenômeno da inteligência coletiva humana. Escreveu vários livros sobre este assunto que foram traduzidos para mais de 12 idiomas e são utilizados em diversas universidades no mundo inteiro.
Atualmente leciona no departamento de comunicação da Universidade de Ottawa (Canadá), onde tem o cargo de Presidente de Pesquisa em Inteligência Coletiva do Canadá (Canada Research Chair in Collective Intelligence). Seu livro “As Tecnologias da Inteligência”, publicado no início dos anos 90, previu o advento da Web. Em 1992, fundou na França a primeira empresa de software dedicada ao gerenciamento de conteúdo. Seu livro sobre inteligência coletiva, publicado em 1994, ainda inspira jovens pesquisadores. Ele é o autor de uma linguagem artificial (www.ieml.org) capaz de expressar qualquer conceito de forma computável. IEML poderia se tornar o <> do espaço cibernético, oferecendo à inteligência coletiva humana uma memória compartilhada interoperável. Ele é membro do Royal Society of Canada e já recebeu várias premiações e distinções acadêmicas.

A philosopher who devoted his professional life to the understanding of the cultural and cognitive implications of the digital technologies, to promote their best social uses and to study the phenomenon of human collective intelligence. He has written a dozen of books on this subject that have been translated in more than 12 languages and are studied in many universities all over the world. He currently teaches at the communication department of the University of Ottawa (Canada), where he holds a Canada Research Chair in Collective Intelligence. His book on the technologies of intelligence, published in 1990, forecasted the advent of the Web. As soon as 1992, he founded in France one of the first software company dedicated to knowledge management. His book on collective intelligence, published in 1994, is still inspiring young researchers. He is the author of an artificial language (www.ieml.org) able to express any concept in a computable form. IEML could become the « semantic code » of cyberspace, offering to human collective intelligence an interoperable shared memory. He is fellow of the Royal Society of Canada and received several awards and academic distinctions.



PIERRE LÉVY
Biografia

Pierre Lévy (Tunísia, 1956) é um filósofo da informação que se ocupa em estudar as interações entre a Internet e a sociedade.
Pierre Lévy nasceu numa família judaica. Fez mestrado em História da Ciência e doutorado em Sociologia e Ciência da Informação e da Comunicação, na Universi-dade de Sorbonne, França. Trabalha desde 2002 como titular da cadeira de pesqui-sa em inteligência coletiva na Universidade de Ottawa, Canadá. É membro da Soci-edade Real do Canadá (Academia Canadense de Ciências e Humanidades).

Em seu livro A Revolução Contemporânea em matéria de Comunicação, Lévy faz uma análise da evolução da humanidade, abordando o desenvolvimento da Internet e a digitalização da informação.
De acordo com Levy, antes da popularização da internet o espaço público de comu-nicação era controlado através de intermediários institucionais que preenchiam uma função de filtragem entre os autores e consumidores de informação. Hoje, com a internet quase todo mundo pode publicar um texto sem passar por uma editora nem pela redação de um jornal. No entanto, essa liberdade de publicações que a internet oferece, acarreta no problema da veracidade, da garantia quanto a qualidade da informação. A cada minuto, novas pessoas assinam a Internet, novos computadores se interconectam, novas informações são injetadas na rede. Quanto mais o ciberespaço se estende, mais universal se torna. Novas maneiras de pensar e de conviver estão sendo elaboradas no mundo das telecomunicações e da informática.

Segundo o filósofo, “as redes de computadores carregam uma grande quantidade de tecnologias intelectuais que aumentam e modificam a maioria das nossas capacidades cognitivas”, ou seja, o computador é um instrumento de troca, de produção e de estocagem de informações, tornando-se desta forma, um instrumento de coloboração. A televisão, ao contrário, para Lévy, é um meio de comunicação passivo, pois não proporciona ao receptor nem troca de informação, nem interatividade, pois ao assistir uma programação na TV, o receptor apenas absorve as informações, mas não consegue interagir com o emissor.

Lévy afirma ainda que “a comunicação interativa e coletiva é a principal atração do ciberespaço”. Isso ocorre porque a Internet é um instrumento de desenvolvimento social. Ela possibilita a partilha da memória, da percepção, da imaginação. Isso re-sulta na aprendizagem coletiva e na troca de conhecimentos entre os grupos.

Dois pontos importantes podem ser destacados em sua teoria:

Código HTML, utilizado em larga escala para a descrição de webpages e um dos principais responsáveis pela popularização da Internet, por tornar a navegação pela rede mundial de computadores extremamente amigável aos usuários.
Universalização
Conceito que aparece com a criação da escrita, sua principal característica e o rom-pimento com o tempo e espaço, ou seja, as informações não estavam mais limitadas ao meio oral. Agora a escrita fixa a mensagem no papel e esta não fica presa nem a questões geográficas ou temporais, podendo chegar a qualquer lugar do planeta, universalizando a mensagem. Antes do surgimento da escrita, a forma de comunicação era oral, ou seja, o emissor e o receptor estavam inseridos no mesmo ambiente havia uma interação entre as partes. Consequentemente as informações e o conhecimento necessitavam de estar em um circulo oral, para não cair no esquecimento. Com a criação deste novo meio, surge uma nova forma de comunicação, com ela não há a necessidade do emissor e do receptor encontra-se no mesmo espaço físico ou temporal. Por outro lado, a escrita também criou o segundo conceito.
Totalização
A escrita possibilitou com que a interação que havia no meio oral deixasse de existir, com isso em um texto escrito há uma totalização, ou seja, somente o emissor e que fala, segundo o seu entendimento sem a possibilidade de interação do seu receptor. Da mesma forma, os meios de comunicação de massa seguem este regime totalitário, onde não existe espaço para uma interação e há uma forma linear e pré-determinada de raciocínio. Com a Internet, a universalização continua, todavia, por outro lado, a totalização some, pois neste meio a interatividade é contínua, ou seja, não há mais um saber autoritário, monolítico e centralizado.
Mais conceitos importantes
Virtual/Atual
O conceito de virtual é amplamente pensado como desprovido de realidade. Lévy nos mostra que essa visão é errônea já que o virtual é real e não se opõe ao mes-mo, ainda que não esteja nas categorias de tempo e espaço (é desterritorializado e atemporal). Segundo Deleuze o virtual é real sem ser atual. Podemos pensar Virtual como uma problemática sem forma definida e o atual como a resposta a essa pro-blemática. O exemplo dado pelo próprio Lévy é que "o problema da semente..." "é fazer brotar uma árvore. A semente é um problema mesmo que não seja somente isso. Isto significa que ela "conhece" exatamente a forma da árvore que expandirá sua folhagem acima dela."(O que é o virtual,1998). Um exemplo prático da falta de território e tempo da virtualidade pode ser dado por uma conversa por telefone ou por MSN. Qual é o lugar onde acontecem essas conversas? Digamos que as duas pessoas que se comunicam estejam em pontos opostos do globo, qual seria a hora? A resposta é em qualquer lugar e a qualquer tempo. Assim como ocorre com o acesso a qualquer arquivo da Internet, você pode ler este texto em qualquer lugar e a qualquer tempo.

Obras
Em português
As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. 1. ed. Lisboa: Instituto Piaget, 1992. 263 p.
As árvores de conhecimentos. São Paulo: Escuta, 1995. 188 p. (em co-autoria com Michel Authier)
O que é o virtual? São Paulo: Editora 34, 1996. 160 p.
A ideografia dinâmica: para uma imaginação artificial? Lisboa: Instituto Piaget, 1997. 226 p.
A ideografia dinâmica: rumo a uma imaginação artificial? São Paulo: Loyola, 1998. 228 p.
A máquina universo: criação, cognição e cultura informática. São Paulo: ARTMED, 1998. 173 p.
Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999. 260 p.
A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. 3. ed. São Paulo: Loyola, 2000. 212 p.
Filosofia world: o mercado, o ciberespaço, a consciência. Lisboa: Instituto Piaget, 2000. 212 p.
A Conexão Planetária: o mercado, o ciberespaço, a consciência. São Paulo: Editora 34, 2001. 189 p.
Ciberdemocracia. Lisboa: Instituto Piaget, 2003. 249 p.
Em francês
La machine univers, Paris: La Découverte, 1987
Les technologies de l'intelligence. Paris: La Découverte, 1990.
L'idéographie dynamique. Vers une imagination artificielle ?. Paris: La Découverte, 1992.
De la programmation considérée comme un des beaux-arts. Paris: La Découverte, 1992.
Les arbres de connaissances, Paris: La Découverte. 1993
L'intelligence collective. Pour une anthropologie du cyberespace. Paris: La Découverte, 1994.
L'universel sans totalité. In: Magazine Littéraire. 1966-1996. La passion des idées, 1996.
Cyberculture. Paris: Odile Jacob, 1997.
Qu'est-ce que le virtuel ?. Paris: La Découverte, 1998.
World Philosophie (le marché, le cyberespace, la conscience) . Paris: Odile Jacob, 2000.
Cyberdémocratie (Essai de philosophie politique). Paris: Odile Jacob, 2002.


Universalização
Conceito que aparece com a criação da escrita, sua principal característica e o rom-pimento com o tempo e espaço, ou seja, as informações não estavam mais limitadas ao meio oral. Agora a escrita fixa a mensagem no papel e esta não fica presa nem a questões geográficas ou temporais, podendo chegar a qualquer lugar do planeta, universalizando a mensagem. Antes do surgimento da escrita, a forma de comunicação era oral, ou seja, o emissor e o receptor estavam inseridos no mesmo ambiente havia uma interação entre as partes. Consequentemente as informações e o conhecimento necessitavam de estar em um circulo oral, para não cair no esquecimento. Com a criação deste novo meio, surge uma nova forma de comunicação, com ela não há a necessidade do emissor e do receptor encontra-se no mesmo espaço físico ou temporal. Por outro lado, a escrita também criou o segundo conceito.
Totalização
A escrita possibilitou com que a interação que havia no meio oral deixasse de existir, com isso em um texto escrito há uma totalização, ou seja, somente o emissor e que fala, segundo o seu entendimento sem a possibilidade de interação do seu receptor. Da mesma forma, os meios de comunicação de massa seguem este regime totalitário, onde não existe espaço para uma interação e há uma forma linear e pré-determinada de raciocínio. Com a Internet, a universalização continua, todavia, por outro lado, a totalização some, pois neste meio a interatividade é contínua, ou seja, não há mais um saber autoritário, monolítico e centralizado.
Mais conceitos importantes
Virtual/Atual
O conceito de virtual é amplamente pensado como desprovido de realidade. Lévy nos mostra que essa visão é errônea já que o virtual é real e não se opõe ao mes-mo, ainda que não esteja nas categorias de tempo e espaço (é desterritorializado e atemporal). Segundo Deleuze o virtual é real sem ser atual. Podemos pensar Virtual como uma problemática sem forma definida e o atual como a resposta a essa pro-blemática. O exemplo dado pelo próprio Lévy é que "o problema da semente..." "é fazer brotar uma árvore. A semente é um problema mesmo que não seja somente isso. Isto significa que ela "conhece" exatamente a forma da árvore que expandirá sua folhagem acima dela."(O que é o virtual,1998). Um exemplo prático da falta de território e tempo da virtualidade pode ser dado por uma conversa por telefone ou por MSN. Qual é o lugar onde acontecem essas conversas? Digamos que as duas pessoas que se comunicam estejam em pontos opostos do globo, qual seria a hora? A resposta é em qualquer lugar e a qualquer tempo. Assim como ocorre com o acesso a qualquer arquivo da Internet, você pode ler este texto em qualquer lugar e a qualquer tempo.



http://pt.wikipedia.org/wiki/Pierre_L%C3%A9vy

A relação intensa com o aprendizado, com a transmissão e a produção de conheci-mentos não está mais reservado para uma elite, mas diz respeito à massa das pes-soas em sua vida diária e em seu trabalho.” (Pierre Lévy)

Como imaginarmos a redação de um jornal sem um computador? Ou um banco sem informatização? Para algumas profissões, o computador como instrumento de trabalho tornou-se imprescindível. No campo musical, igualmente o uso do computador está cada vez mais se aprimorando. Entretanto, se por alguns anos pensou-se que o computador substituiria a mão de obra nas profissões – o que hoje sabemos ser uma afirmação errônea – em música é oportuno lembrar que a nova tecnologia possibilita ao músico inúmeras opções para profissionalização, abrindo assim novos campos de trabalho. Tracemos um histórico da música por computador para entendermos quais as possibilidades profissionais ele pode oferecer.

Segundo Moore - professor do departamento de música da Universidade da Califór-nia - o primeiro trabalho produzido por computadores advém da década de 50 e era centrado na utilização de computadores para compor música [1]. A composição era de acordo com regras expressas por meio de linguagens de programação. Ele conta que desde essa época os computadores vem sendo usados para estudar análises de partituras musicais por musicólogos e observa que a maioria da utilização se refere à criação de sons, a utilização de computadores como instrumentos musicais, vindo da música eletrônica. Porém tendo pouco a ver com a música eletrônica tradicional, como a música concreta ou dos sintetizadores de música analógica tipo Moog. De acordo com essas afirmações o o médico e pesquisador Sabattini [2], aponta para a complexidade da música realizada pelos computadores:

“Vista como um domínio do conhecimento, a música computacional é uma das atividades mais interdisciplinares que existem, englobando muitos aspectos de música (composição, performance, musicologia), ciência da computação (programação, inteligência artificial), engenharia elétrica (circuitos analógicos e digitais, arquiteturas de máquinas, processamento digital de sinal), psicologia (percepção, cognição) e física (acústica).”

Percebemos por essa afirmação que Sabbatini tem razão quanto a gama de conhe-cimentos que o uso do computador em música dispende. Isso cobra do usuário, uma série de informações não necessitadas anteriormente para demonstrar sua arte. Na música, o uso do computador tem cada vez mais firmado seu espaço, obrigando o músico - que antes dedicava ao seu instrumento musical horas de estudo – a dividir seu tempo no aprendizado de uma nova forma de demonstrar sua arte. Sabemos que esse aprendizado é necessário e o músico precisa ter disposição, pois o volume de informações é extenso e a cada dia novas tecnologias estão surgindo, aprende-se sempre. Sobre essa necessidade do novo aprendizado, Pierre Lévy – pesquisador e especialista em novas tecnologias - comenta que não se pode pensar mais na ‘não especialização’ em um mundo no qual a informática age rapidamente. Lévy alerta que a divisão do período de trabalho e aprendizado deve ser questionada, como vemos:
“Na escala de uma vida humana, a maior parte dos know-how úteis sutis eram perenes. Ora, em nossos dias, a situação mudou radicalmente, pois a maioria dos saberes adquiridos no começo de uma carreira estarão obsoletos no fim de um percurso profissional, até mesmo antes.... Por causa disso é que os indivíduos e os grupos não se deparam mais com saberes estáveis, com classificações de conhecimentos herdadas e confortadas pela tradição, mas sim como um saber-fluxo caótico, cujo curso é difícil de prever e no qual a questão agora é aprender a navegar.
Portanto, está superado o velho esquema segundo o qual se aprende na juventude um ofício que será exercido pelo resto da vida.... Essa abordagem leva a questionar a divisão clássica entre período de aprendizado e período de trabalho (pois se a-prende o tempo todo), bem como o ofício enquanto principal modo de identificação econômica e social das pessoas.” [3]

Aprender novas tecnologias pode se tornar uma tarefa difícil e que demorará meses ou até mesmo anos. Contudo, o que é mais interessante é que essa nova tecnologia permite ao músico uma reprodução de sua obra ao mesmo instante em que é composta, o que não acontecia antes. Tudo que se faz no computador para/com música pode ser ouvido imediatamente, seja no campo da composição – ouvir o que se compõe - ou no plano dos efeitos de áudio. Nossa afirmação concorda com o pensamento do pesquisador e músico Eduardo Paiva, segundo ele:

“Talvez seja essa a grande facilidade que o computador traz ao músico: a possibili-dade da experimentação sem a necessidade de imaginar o resultado final, pois tudo que é feito no computador pode ser reproduzido imediatamente. Essa capacidade do computador ser um imenso “simulador musical” era algo até agora inédito na música, e é aí que reside uma das maiores importâncias do computador com meio expressivo para o músico.”[4]

Essa é uma característica da informatização, a noção do tempo real. Assim, pode-mos traçar um paralelo na afirmação de Paiva, no que se refere à música – com afirmações de Pierre Lévy – no âmbito da utilização da informática no cotidiano. Para este, a informatização possibilita um grande armazenamento de informações e com esta surge a noção do tempo real, ou seja, o espírito da informática se resume na condensação no presente, na operação em andamento.[5]

O uso da eletrônica na música iniciou-se com objetivo de amplificar o som. Mais tarde criou-se dispositivos para também gravar e reproduzir, juntamente aconteciam experiências para se gerar som através dos osciladores eletrônicos. Após algumas décadas do uso da eletrônica na música, surge o computador também para essa finalidade. Ao final da década de 70, engenheiros e técnicos de som de pequenas, novas e desconhecidas fábricas, desenvolveram a música aliada a tecnologia digital. Embora não se tratando exatamente de músicos, esses profissionais tinham o domínio da tecnologia digital e incentivaram muitas empresas grandes de instrumentos musicais como a Roland e a Yamaha, a investir na pesquisa da tecnologia digital para seus instrumentos. Muitas dessas fábricas pequenas fecharam e o pessoal técnico foi aproveitado em outras novas competidoras e também nas fábricas de grande porte. O importante dessas pesquisas foi o desenvolvimento e a criação novos instrumentos musicais eletrônicos, denominados de sintetizadores. É dessa fase o famoso DX7 da Yamaha, criado em 1984 e o Emulator – primeiro sampler, que armazenava timbres em disquete – de 1982. O fato é que nessa época uma polêmica com relação ao uso de computadores e sintetizadores em música começou a existir. Muitos músicos passaram a defender os instrumentos acústicos e a atacar os usuários de sintetizadores. Inclusive é oportuno esclarecer que muitos músicos eruditos contemporêneos, ao contrário do que se pensa, foram favoráveis a esse novo tipo de tecnologia, adotando-a e mais tarde e sendo denominados de músicos que com-punham através da “eletro-acústica”. Entretanto, se as críticas são pesadas, não se pode negar que uma das maiores vantagens dos instrumentos denominados digitais é a manutenção da afinação. Anteriormente, manter a afinação em sintetizadores de som analógicos apresentava dificuldades. A medida em que foram incorporados mais circuitos digitais nos sintetizadores outras novidades foram sendo implantadas, como o MIDI.

A música por computador existe praticamente desde que surgiram os primeiros computadores. Entretanto, com o surgimento dos microcomputadores, podemos notar a maior utilização e surgimento desta a partir de 1983. Isso se deve a três fato-res: à política de barateamento dos próprios computadores - que se tornaram mais acessíveis - à capacidade maior de armazenamento e processamento dos mesmos, e ao surgimento de uma nova tecnologia chamada de MIDI ou Music Instrument for Digital Interface. O sistema MIDI só se aplica para instrumentos musicais e é um padrão de transmissão digital dados, podemos pensar em transferência de informa-ções. Essas transferências podem ocorrer de um instrumento musical para outro, apenas é preciso que os dois instrumentos possuam o código MIDI. O sistema MIDI usa códigos digitais que carregam informações musicais como: notas musicais, volume, troca de timbres, acionamento pedais e outros; e também informações não digitais como configurações de equipamentos de estúdio. É interessante ressaltar, que os criadores do MIDI tiveram a preocupação de que sua inclusão nos instrumentos musicais não acarretasse um aumento do custo dos mesmos. Para isso desenvolveram um circuito de interface simples e para que o usuário não se sentisse impedido de usá-lo, usaram apenas um cabo para a conexão. Mesmo se o usuário fizer a conexão errada, este não danifica o instrumento, apenas o circuito não funciona. A especificação do MIDI é de domínio público, então qualquer empresa pode usá-lo em seus produtos. Essa padronização que o MIDI trouxe e seu custo zero, revolucionou a música digital. Com sua utilização o músico passou a poder controlar mais o instrumento e passou a manipular sua música com rapidez e precisão. Com o surgimento do MIDI, o novo mercado começou a existir com softwares de variados tipos, houve a intercambialidade musical, ou seja, aproximação maior entre os fabricantes por usarem o mesmo padrão. Com a introdução da linguagem MIDI (1983), as possibilidades de utilização dos instrumentos musicais em geral expandiram-se em escalas ilimitadas. A grande novidade foi o uso do computador como auxiliar do músico ou mesmo como instrumento musical. O computador, através de programas (softwares) especiais, pode simular um sintetizador, seqüenciador, sampler e tudo ao mesmo tempo. O MIDI até propiciou o surgimento de músicos de computador, antes incapazes de fazer música utilizando instrumentos musicais convencionais e suas respectivas ferramentas. O que se critica nesse caso é a profissionalização ou não destes, como vimos anteriormente. Como tudo em informática é rápido, atualmente já se pensa em um aperfeiçoamento da conexão MIDI, a empresa belga ‘Digital Design and Development’ apresentou uma proposta para o que seria uma forma de se "vencer as limitações do sistema MIDI atual", o chamado XMIDI. Tom White, atual presidente da associação de fabricantes MIDI, acha que o MIDI atual, continua ótimo até hoje. Segundo ele: é uma tecnologia de extremo sucesso, que foi aplicada muito além da concepção original (conectar instrumentos musicais), e tem sido usada para conectar computadores, equipamentos de estúdio, de iluminação, e até mesmo controlar eventos em parques temáticos. Ele afirma que as óbvias limitações do MIDI já foram superadas pelos fabricantes e acredita que o próximo desafio, é transformar o MIDI de ferramenta em meio de distribuição.

A linguagem MIDI realiza a comunicação entre os softwares de música e os sinteti-zadores, “uma linguagem que ao mesmo tempo em que manipula informações musicais , o faz sem ser capaz de traduzir todas as nuances de dinâmicas e articulações que compõem o discurso musical.”[6] Paiva aponta para a necessidade de que o usuário precisa saber aproveitar ao máximo da nova tecnologia, segundo ele não se pode limitar o potencial dos instrumentos. Não se pode pensar nesses equipamentos apenas para um determinado fim, as possibilidades são variadas, “tais equipamentos são novos instrumentos que necessitam uma nova abordagem para seu ensino, que faça com que as pessoas percebam seus verdadeiros potenciais como novos instrumentos e não reduzindo-os a uma versão eletrônica dos instrumentos que emulam”.[7]

Atualmente, há variados recursos que o computador dispõe para a música. Estes permitem ao “músico usuário” criar, modificar, manipular, grafar, executar, reprodu-zir, gravar; enfim, uma série de procedimentos que há uma década atrás por exem-plo não acontecia. O que devemos deixar claro, é que não se pode pensar em músi-ca por computador se não existir o músico que opera e cria através dele. Os softwa-res são muito específicos e somente um músico pode compreendê-los. Portanto, não há atualmente, condições de se operar programas de computador para música, se o usuário não possuir um conhecimento musical. Notamos, é que esse grau de conhecimento é variável e afeta o resultado final do trabalho proposto, ou seja, quanto mais competente e especializado o músico, melhor o resultado final. A idéia de que o computador faz música sozinho, é errônea e ultrapassada - embora em alguns casos ele possa até fazer com comandos específicos do músico - porém, precisamos ter em mente que o computador apenas disponibiliza as ferramentas necessárias para criação da obra musical, o artista é quem cria e o opera, sem ele, isso tornaria-se inviável. O computador é apenas mais uma ferramenta que o músico dispõe para sua música.

A multimídia é a linguagem mais completa ligada a tecnologia da produção musical, pois apresenta recursos de interatividade e convergência das mídias. É importante ressaltar que além de todo conhecimento musical, o usuário depende de certas informações técnicas, próprias da linguagem computacional, para poder prosseguir seu trabalho como por exemplo, manipular um arquivo, configurar uma impressora, ajustar os canais de MIDI corretamente e outros. Então, além da execução musical o músico precisa dominar novas ferramentas para seu trabalho. Sobre a necessidade do músico em aprender uma nova técnica, Paiva comenta que “a música e a tecnologia caminham juntas desde muito cedo, pois todo instrumento musical encerra em si uma tecnologia específica utilizada para seu desenvolvimento e construção e toda técnica musical ... somente materializa-se através dessa tecnologia”[8]. Paiva compara Beethoven a Jimmy Hendrix, no sentido em que ambos necessitaram de uma tecnologia específica para compor suas obras, – Beethoven necessitava de um piano para compor e Hendrix dispôs de uma gama de guitarras e outros instrumentos eletrônicos – ele considera que antes da tecnologia existe a necessidade da técnica, que, muitas vezes “operacionaliza o indivíduo no correto manuseio das tecnologias”[9]. Em música, é oportuno lembrar que para sua existência, ela necessita de composição, execução e meios que permitam sua difusão e seu registro. Sendo assim a tecnologia está presente desde sua concepção até sua recepção pelo ouvinte. E o que é mais interessante é que o uso do computador para a música, possibilita o encontro entre o homem e a tecnologia através da criação artística em um determinado meio, como aponta Paiva:


“O encontro entre o humano e o tecnológico, o ato de criação e execução musical materializado através da tecnologia e de uma interface específica”[10]

O que o músico precisa é saber aliar, o nível teórico musical, o nível teórico de com-putação e a criação musical a essa nova interface, a esse novo código de acesso para sua arte se materializar.


Um conceito bastante interessante que podemos analisar é o de interface. Lévy de-fine interface como: um dispositivo que garante a comunicação entre dois sistemas informáticos distintos ou um sistema informático e uma rede de comunicação [11]. A partir dessa afirmação, podemos transpor esse conceito também para música. Pois, todo instrumento é uma interface, um local no qual, através da troca do código musical por um gesto, se produz o som. Paiva concorda com Dertouzos a respeito da interface, segundo ele a interface é um local de trocas, onde as linguagens são convertidas em sons, sons em imagens, códigos em outros códigos. Dertouzos define a importância da interface “são importantes, pois no colocam em contato com as máquinas do mercado de informação, ... são o ponto de encontro entre o humanismo e a tecnologia”[12]. A interface permite troca de informações. É interessante ressaltar que em informática, as interfaces gráficas atuam como conversores de informações para que os usuários compreendam melhor cada , como veremos a seguir sobre os programas que são oferecidos ao usuário musical.
Nos últimos anos houve uma sensível transformação na prática musical a partir da aparição dessas novas tecnologias. A música por computador está intimamente ligada a novas formas de criação musical, como podemos notar na citação abaixo em que Paiva compara aos estúdios e aos sintetizadores, o uso do computador para inovação da criação musical.

“O estúdio de gravação, os sintetizadores e os computadores revolucionaram boa parte dos modos tradicionais de criação musical”.[13]


Complementando o pensamento de Paiva, podemos afirmar que a junção do se-qüenciador, sampler e o sintetizador, como vimos, revolucionaram a música. Lévy também aponta para esse caminho. Compara essa mudança no novo modo de se pensar música às grandes invenções no campo musical. Sobre a junção dessas três novas tecnologias a serviço da música comenta:
“A maior parte dos observadores, está de acordo quanto a ver, no surgimento dos instrumentos digitais que acabamos de descrever (seqüenciador, sampler e sinteti-zador), uma ruptura comparável à da invenção da notação ou ao surgimento do dis-co”.[14]

O estúdio, os sintetizadores e o computador estão muito ligados a um aspecto da música por computador que podemos destacar, o áudio, ou seja, a parte da música ligada à manipulação do som. Os programas de áudio são dotados de recursos grá-ficos para a visualização da edição e gravação das músicas. Esse procedimento ajuda o técnico de som a executar seu trabalho. Há vários tipos de programas para esses fins, e eles variam conforme seu custo. Partindo desse princípio há dois tipos de usuários: os amadores e os profissionais. Os amadores ou semi-profissionais são usuários que possuem seu próprio estúdio em casa e utilizam programas mais baratos. Atualmente, esses usuários contam com a facilidade de se obter softwares. Muitas revistas vêm com CDs cheios de programas e também pela Internet há acesso a uma infinidade de versões de demonstração de softwares. Vale ressaltar também, que cada vez mais, os custos dos instrumentos digitais estão caindo, graças ao barateamento da tecnologia digital, isso proporciona aos usuários maior poder de compra. Os profissionais são operadores de grandes estúdios que utilizam programas altamente especializados e portanto, onerosos. Muitos estúdios profissionais atuais já estão substituindo toda sua tecnologia analógica pela digital, devido a alta precisão dos programas disponíveis no mercado. O uso do disco rígido do computador também atrai, pois consegue armazenar uma grande capacidade do som digitalizado e isto é feito relativamente rápido. Entretanto, é necessário que o músico conheça as particularidades de todos os instrumentos se quiser trabalhar com a edição perfeita do som. Pois cada instrumento tem sua especificidade e apenas um músico é capaz de compreendê-las. Para o perfeito aproveitamento houve a necessidade de encontrar um profissional que aliasse a técnica, a estética e a música. Esse profissional é denominado de o produtor musical, um misto de engenheiro de som, músico e planejador de marketing.

É oportuno notar que existe uma similaridade entre os instrumentos que participam do processo da música feita por computador, os teclados e sintetizadores. Por e-xemplo, os drives de disketes são compatíveis tanto nos instrumentos musicais co-mo no computador e a linguagem usada também é a mesma para os dois tipos. Es-sa padronização além de baixar os custos, acaba facilitando a manutenção e a ob-tenção dos dispositivos. O inverso também ocorre, os computadores também se a-proximam dos instrumentos musicais. É possível também gerar som no computador denominado de multimídia, através das placas de som desenvolvidas para esse fim. O que ocorre é que a qualidade sonora ainda não é superior ao som dos sintetizadores e ainda ficam a dever aos instrumentos acústicos.

Com a maior utilização dos computadores multimídia na vida cotidiana, também o campo de trabalho para o músico aumentou, além de atuar em estúdios de grava-ção, pode atuar também no setor de composição de trilhas para internet e cd-roms. A maioria dessas mídias apresentam músicas em seus sites e/ou links. O problema que existe para esses compositores de trilhas para multimídia é a limitação sonora dos sintetizadores que existem na placa de som. Algumas já estão caindo em desu-so em sinal da má qualidade de seus timbres. Entretanto existem placas que possu-em timbres sampleados e executam músicas com timbres melhores, mas sempre lembrando que o custo também é mais elevado. Mesmo assim, às vezes compositor precisa de um timbre que não está disponível e acaba adaptando esses timbres à sua idéia, o que às vezes limita a capacidade de compreensão. Entretanto, também a pesquisa com relação a essa incapacidade de geração de timbres com qualidade superior já se encontra em expansão.Em maio deste ano, a MMA (MIDI Manufacturers Association) anunciou a criação de um grupo de trabalho para o desenvolvimento de um novo padrão para áudio em equipamentos multimídia. Pode-se usar também os samples conjugados ao sistema MIDI. A vantagem deste uso é que as gravações são feitas no formato Wave, que mantém 100% de fidelidade dos sons sem perda da qualidade. Contudo é necessário para se usar, dominar a linguagem MIDI e também a linguagem dos samplers.

Outro campo em que o músico pode atuar é o de edição de partituras. Além de es-crever seu próprio trabalho no editor, pode ainda oferecer serviços de digitação de partituras como copista e trabalhando em editoras musicais. Existem muitos softwa-res que servem para a notação musical (Encore, Finale, Personal Composer, QuickScore e outros), porém cada um usa seu formato de arquivo, o que impede o intercâmbio de arquivos de música. Embora o padrão Standard MIDI File já seja uma realidade há quase dez anos, ele não contém informações gráficas de notação o que dificulta o intercâmbio de partituras. Porém como as pesquisas nessa área não cessam e recentemente foi criado um padrão para arquivos de notação musical bastante flexível. Este padrão é chamado de NIFF ("Notation Interchange File Format") e permite o intercâmbios de softwares de edição de partituras e de softwares tipo Midiscan. Ele pode representar desde partituras simples, com poucas informações gráficas, até descrições bem mais elaboradas, como layout de páginas e informações MIDI, como a transferência de uma partitura scanneada com informações MIDI.

Podemos pensar que o músico dispõe de outros recursos que o computador oferece para composição de sua obra. Estamos nos referindo ao tipo de composição muito utilizado atualmente que se refere à digitalização do som como amostragem, os samplers. Essas composições têm como príncipio a inserção de trechos – pequenos ou não – organizados de acordo com a criatividade do músico operador, vindos de gravações já pré-existentes. Esses trechos podem ser manipulados com distorções, repetições e outros recursos, e também podem ser usadas como foram concebidas primeiramente. Compondo dessa maneira cada música é gerada a partir de outras e apesar de estar se transformando em uma única composição advém de outras composições já pré estabelecidas e não deixa de ser uma composição coletiva, já que cada autor concebeu sua obra anteriormente. É como se não existisse um músico só, graças a criação coletiva foi possível a composição final. A informática apresenta dispositivos que permitem esse tipo de composição. Esse tipo de composição coletiva - chamado de música tecno - é o mesmo princípio apontado por Pierre Lévy no seu conceito de cibercultura. Segundo Lévy, cibercultura significa o conjunto de técnicas materiais e intelectuais, de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço. Por sua vez, o ciberespaço é mais conhecido por rede, significa novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. Lévy aponta para o significado cultural da cibercultura, segundo ele, cada pessoa torna-se uma emissora de informações, como vemos:
“O espaço cibernético é um terreno onde está funcionando a humanidade, hoje. É um novo espaço de interação humana que já tem uma importância enorme sobretudo no plano econômico e científico e, certamente, essa importância vai ampliar-se e vai estender-se a vários outros campos, como por exemplo na Pedagogia, Estética, Arte e Política...O interesse é pensar qual o significado cultural disso. Com o espaço cibernético temos uma ferramenta de comunicação muito diferente da mídia clássica, porque é nesse espaço que todas as mensagens se tornam interativas, ganham uma plasticidade e têm uma possibilidade de metamorfose imediata. E aí, a partir do momento que se tem o acesso a isso, cada pessoa pode se tornar uma emissora, o que obviamente não é o caso de uma mídia como a imprensa ou a televisão.”[15]

Através da internet, a troca de arquivos musicais tem se expandido. O usuário da internet também pode criar e manipular o som que chega até ele em sua casa. Sa-be-se que atualmente há grupos que produzem músicas a partir de retalhos transmitidos pela rede. Nesse caso o que é mais complicado é a questão do direito autoral, entretanto de acordo com as pesquisas, os usuários não se intimidam com esse problema, ao contrário, é justamente pela não legalização que estão dispostos a criar e compilar as obras. Para esses o processo de criação é o mais importante, como vemos:

“Eles rejeitam a filosofia da propriedade intelectual, do copyright, a que opõem o "copyleft" e o uso de programas de código aberto. A música não é de ninguém e é de todos: trocando pedaços das canções, eles remixam, adicionam gravações e tro-cam andamentos... ‘Os participantes têm um interesse em comum’, explica o coletivo no site, que é ‘a produção de obras livres das amarras da propriedade intelectual’.”[15]

Como conclusões observamos que a informática em música está em constante de-senvolvimento. Notamos a cada dia inovações, e também aperfeiçoamento dos dis-positivos já existentes. Percebemos também, que o músico necessita de uma gama de informações para que a música seja veiculada ao computador. Em contrapartida, essas informações permitem novas formas de criação da sua arte. Ainda notamos, que as novas possibilidades tecnológicas colaboram para o surgimento de novas profissões que podem ser exercidas por ele.

GLOSSÁRIO:
MIDI, (Musical Interface for Digital Instruments) – é um código desenvolvido em 1982 pela Roland e pela Sequencial Circuits, com a finalidade de permitir que sintetizadores, samplers, computadores, sequencers, baterias eletrônicas e demais equipamentos equipados com interface MIDI, possam comunicar-se entre si. MIDI não transmite sons, e sim informações sobre o som. A interface MIDI é instalada no computador e raliza a comunicação entre o computador e o sintetizador externo.

MOOG - Na década de 60, o engenheiro Robert Moog iniciou a construção de novos equipamentos denominados de sintetizadores. Ele foi o responsável pela invenção dos primeiros sintetizadores modulares Moog que foram mundialmente difundidos através dos primeiros tecladistas que utilizaram sintetizadores em suas gravações e performances como Keith Emerson (Lucky Man) e Wendy Carlos (Switch on Bach).

SAMPLER – é um instrumento capaz de gravar qualquer som em sua memória digital, através de sinal de áudio direto. Possuem complexos parâmetros de edição que permitem copiar, mixar, combinar em sequência, deletar, filtrar e transpor as formas de onda amostradas.

SEQUENCIADOR - Gravador digital, capaz de armazenar informações digitais em diferentes canais de gravação digital. Geralmente apresentam diversas pistas de gravação, memória para armazenar as informações gravadas, sincronização, dife-rentes formas de gravação. Tipos de informações registradas como: notas tocadas, ataque e duração da nota, variações de sensibilidade das notas tocadas. variações dos controles de PITCH, volume, velocidade.

SINTS – abreviatura de sintetizador.
SINTETIZADOR - Instrumento musical eletrônico, que dá ao seu usuário a capaci-dade de manipulação do som. É possível criar novos timbres (sons) e editar (modifi-car) timbres prontos de fábrica (presets).

Nos sintetizadores, as formas de ondas sonoras são produzidas por osciladores ele-trônicos. Misturando e dosando harmônicos, controlando a afinação, ataque e desintegração dos sons obtidos pelos osciladores, o usuário pode criar timbres simulares de instrumentos acústicos ou timbres inéditos só possíveis de conseguir através dos sintetizadores, como é o caso de efeitos sonoros que ouvimos na música eletrônica, principalmente no trance e no techno.

SINTETIZADOR ANALÓGICO E DIGITAL - Os analógicos, que são os primeiros sin-tetizadores cujo princípio é baseado de que todo o som que produzem são criados a partir de osciladores analógicos que produzem mudanças constantes de tensão elétrica, produzindo diversos tipos de formas de ondas. Geralmente os analógicos não possuem memória de timbres, ou seja, não é possível armazenar o que foi criado. Os digitais, processo que consiste em osciladores (ou operadores) que produzem formas de ondas digital, ou seja, estas ondas são produto da combinação de números binários, sendo que as ondas seriam apresentadas como um conjunto de pequenos pontos. Possuem memória para armazenar o que foi criado e memória com timbres já gravados vindo de fábrica.

WAVE – formato que designa os sons digitalizados de qualquer espécie. O formato WAVE ao contrário do MIDI é o som propriamente dito, amostrado de qualquer fonte sonora: microfone, toca-discos, cds, cassetes e outros.
BIBLIOGRAFIA

Revistas especializadas em áudio:
Computer Music Journal
Revista Backstage
Revista Cérebro e mente
Revista Música e tecnologia e Jornal “Folha de São Paulo”

Livros e teses:

ALTEN, Stanley R. Audio in media. EUA: 3ª edição, 1990. LÉVY, Pierre. As tecnolo-gias da inteligência – o futuro do pensamento da era da informática. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1990.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999.
PAIVA, José Eduardo Ribeiro de. Uma análise crítica da relação música/ tecnologia do pós-guerra até a atualidade. Campinas: Tese de mestrado, Unicamp, Instituto de Artes, 1992.

PAIVA, José Eduardo Ribeiro de. Sonorização em multimídia: técnicas específicas para a música digital. Campinas: Tese de doutorado, Unicamp, Instituto de Artes, 2002.



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[1] MOORE, F. Richard. Dreams of Computer Music – Then and Now. Computer Music Journal. vol. 20. nº 1 pp 25-41. 1996. Segundo Moore, a síntese de música computacional foi pela primeira vez realizada nos Bell Laboratories, os quais também nos trouxeram o cinema sonoro, o som estereofônico, a fala sintetizada por computador, o transistor, o laser e alguns tipos de satélites de comunicação. As primeiras experiências de programas de computador para composição de música foram escritos por Lejaren Hiller na University of Illinois nos meados da década de cinquenta. Max Mathews, trabalhando com John Pierce, escreveu nos Bell Laboratories os primeiros programas de síntese de som por computador em 1957. Mathews desenvolveu um programa de música por computador em 1957, em um computador de grande porte. O programa era chamado Music I e apresentava uma única voz, uma forma de onda triangular, não possuia ADSR e só controlava a afinação, intensidade e duração. O Music I deu origem a uma série de programas musicais como Music II, Music III e o Music IV. Nos meados da década de sessenta, John Chowning montou a primeira instalação universitária de música computacional na Stanford University. Desde aquela época, a música computacionalvem sendo amplamente praticada nos Estados Unidos, Suécia, França, Canadá, Austrália, Itália e Áustria.

[2] SABATTINI, Renato. Tomografia PET: uma janela para o cérebro. Artigo da Re-vista Cérebro & Mente 1(1), 1997.

[3] LÉVY, Pierre. Artigo: Tecnologias intelectuais e os modos de conhecer: nós so-mos textos. Tradução: Celso Cândido.

[4] PAIVA, José Eduardo Ribeiro de. Uma análise crítica da relação música/ tecnolo-gia do pós-guerra até a atualidade. Campinas: Tese de mestrado, Unicamp, Instituto de Artes, 1992.


[5] LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência – o futuro do pensamento da era da informática. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1990.

[6] PAIVA, José Eduardo Ribeiro de. Op. Cit. p. 28.

[7] PAIVA, José Eduardo Ribeiro de. Op. Cit. p. 28.

[8] PAIVA, José Eduardo Ribeiro de. Sonorização em multimídia: técnicas específi-cas para a música digital. Campinas: Tese de doutorado, Unicamp, Instituto de Ar-tes, 2002.


[9] PAIVA, José Eduardo Ribeiro de. Op. Cit. p. 18.

[10] PAIVA, José Eduardo Ribeiro de. Op. Cit. p. 39.

[11] LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência – o futuro do pensamento da era da informática. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1990.


[12] In: PAIVA, José Eduardo Ribeiro de. Op. Cit. p. 37, DERTOUZOS, Michael. O que será, São Paulo: Companhia das letras, 1997, p. 85.

[13] PAIVA, José Eduardo Ribeiro de. Op. Cit. p. 29.

[14] LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência – o futuro do pensamento da era da informática. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1990.
[15] LÉVY, Pierre. A emergência do cyberspace e as transformações culturais. Pa-lestra realizada no Festival Usina de Arte e Cultura, promovido pela Prefeitura Muni-cipal de Porto Alegre, em Outubro, 1994. Tradução Suely Rolnik. Revisão da tradu-ção transcrita João Batista Francisco e Carmem Oliveira.

[16] Matias, Alexandre. Artigo da Folha de São Paulo. Grupos compõem música com trechos de MP3 retirados da web. Artigo retirado da Folha de São Paulo, 10/ 02/ 2003.
http://www.iar.unicamp.br/disciplinas/am625_2003/Cintia_artigo.html

Recensão Crítica:

“A Web 2.0. Rumo à Construção colectiva do conhecimento?”

Vivemos num período em que a Web 2.0 não é o futuro. Por vezes sem repararmos, a Web 2.0 é o presente e à velocidade com que as tecnologias se transformam não tarda entraremos num novo paradigma de Web. Termo criado por Tim O’ Reilley em 2004, a Web 2.0 apresenta uma evolução nas redes digitais e na forma como os utilizadores as encaram. Porém, apesar de glorificada pelo público e media em geral, será que podemos considerar esta nova Web como o caminho para o “conhecimento absoluto” ou como uma nova “Torre de Babel”?

De uma forma geral, a Web 2.0 apresenta um novo modelo de Internet descentrali-zado de uma minoria que publica conteúdos, ou seja, passa a ser um meio mais democrático e numa perspectiva horizontal. A principal ideia da Web 2.0 é que todos os utilizadores podem participar e colaborar na produção de conteúdos numa verdadeira construção colectiva de conteúdos. Estes passam a ter um maior foco, havendo um maior número de informações relativas a cada assunto e nas suas mais diversas formas (vídeo, áudio, imagem, etc.). A Web passou também a ser muito mais simples, rápida e instantânea, isto é, o utilizador não necessita de ter muitos conhecimentos de informática para publicar os seus conteúdos. Por fim, a Web 2.0 também veio facilitar a interacção entre utilizadores que criam verdadeiras comunidades sociais em torno de determinado assunto em comum. De uma forma resumida, a Web 2.0 veio “potencializar as formas de publicação, compartilhamento e organização de informações, além de ampliar os espaços para interacção entre os participantes do processo (…) de trabalho colectivo, de troca afectiva, de produção e circulação de informações” (PRIMO, 2006: 1).

Apesar de só ter sido falada em 2004, a Web 2.0 já tinha algumas bases na Internet tradicional (ou “Web 1.0”) e alguns profetas das novas tecnologias já adivinhavam a mudança de paradigma na Rede. Um deles é Pierre Lévy que em 1990, na sua obra As tecnologias da Inteligência fez uma análise do actual estado da Internet e a das mais recentes tecnologias fez uma antevisão do que seria o futuro da Web. Fala, por exemplo, do hipertexto como uma nova forma de construir conteúdos de forma rápida, não-linear e dinâmica. Esses hipertextos sofreram desde logo uma transformação com o aparecimento dos groupwares cujo papel era “tornar comuns os textos, redes de associações que são apreendidas por diferentes pessoas” (LÉVY, 1990: 94), ou seja, é um hipertexto participado. Além disso, Lévy conclui que a Internet comporta 4 funções principais: produção ou composição de dados; selecção, recepção e reprocessamento de dados; transmissão; e armazenamento. Através destas quatro funções, num futuro, os computadores tornar-se-iam em “terminais inteligentes” com a hierarquização e organização de conteúdos conforme as opções ou gostos dos utilizadores.

Pierre Lévy refere ainda que num futuro próximo viveremos numa cultura informáti-co-mediática, em tempo real e com conhecimento baseado na simulação.
Nove anos depois, um outro profeta da Web 2.0, Dominique Wolton, na sua obra “E Depois da Internet?”, faz também uma análise do actual estado da Web. Refere co-mo as novas tecnologias tiveram um enorme sucesso quando garantiram autonomia, rapidez e liberdade aos utilizadores, alterando modelos da sociedade contemporânea. “A Web torna-se a figura da utopia de uma sociedade onde os homens são livres, capazes de se emancipar por eles mesmos” (WOLTON, 1999: 77), isto é, a cada utilizador é garantida a emancipação individual através da filosofia do “do it yourself”, sem barreiras sociais e culturais. As novas tecnologias vêm ainda mudar a forma como os homens comunicam, a sociedade organiza as relações colectivas sem os “constrangimentos que sufocam os meios de comunicação clássicos” (WOLTON, 1999: 92).

Ambos os autores conseguem fazer uma previsão de algumas características da Web 2.0 em alturas em que a Internet ainda não estava tão desenvolvida como nos dias de hoje. No entanto, ambos têm discrepâncias nas suas teorias. Pierre Lévy, através da análise histórica do aparecimento do PC e da Internet, é muito mais posi-tivo e optimista relativamente às novas tecnologias, adquirindo até uma posição tecnocrata da sociedade. Ainda assim, consegue prever a Web como construção colectiva de conteúdos (referindo os groupwares) e contendo o sistema de tags, com a organização de informações consoante as nossas opções, ou seja, antevê estas características da Web 2.0.

Apesar de não explicitamente, Dominique Wolton é mais crítico relativamente à Web. Obviamente que na análise que faz, a Internet está muito mais desenvolvida que há 9 anos no tempo de Lévy. Mas Wolton, num certo teor crítico, nunca deixa de referir que a sociedade contemporânea está a mudar a passos largos com as novas tecnologias, mas que isso pode comportar aspectos negativos, como a “solidão interactiva”. Numa sociedade em que as relações passam a ser mediadas por computador, os laços entre pessoas tornam-se mais fracos e deixa de haver o sentimento de comunidade no sentido mais tradicional. Ainda assim, Lévy enaltece a questão da “emancipação individual” dos utilizadores quando ligados à Internet. Quer isso dizer que, ao contrário dos media tradicionais, o utilizador deixa de ter um papel passivo e tem liberdade para produzir conteúdos e publicá-los…tal como actualmente na Web 2.0.

Analisando as teorias dos dois autores, não podemos deixar de reparar que a Web 2.0 não é completamente nova. A Internet sempre permitiu uma construção partici-pativa e colectiva de conhecimentos ou um enaltecimento da liberdade individual nessa participação, embora reservada a uma minoria interessada. A diferença é que actualmente existem muitas mais ferramentas que facilitam essa colectividade e interacção. Exemplo disso é o aparecimento dos wiki’s (destaque para a Wikipédia), o YouTube, o boom dos blogs, o sistema de tags e de RSS, etc. São ferramentas que se popularizaram a dada altura e que entretanto solidificaram as potencialidades que já existiam adormecidas na Web. Certamente que nos dias de hoje a Internet é uma verdadeira biblioteca de conhecimento a caminho do infinito. E somos todos nós que construímos esse conhecimento. Mesmo o utilizador mais passivo que não colabora directamente na produção de conteúdos, contribui através do acesso a esses mesmos conteúdos, mantendo-os “vivos”.
Respondendo à pergunta do título: Não, a Web 2.0 não está rumo à construção co-lectiva de conhecimento. A Web 2.0 é a construção colectiva de conhecimento. No nosso ponto de vista, a Internet é o único meio com potencialidades e com capaci-dades para conseguir receber, armazenar e permitir a interacção de conhecimentos e informações.

No entanto, não adquirimos uma posição tecnocrata como Pierre Lévy. A Web 2.0 comporta muitas falhas que acabam por ser disfarçadas pelo positivismo dos media em relação às suas maravilhas. A subjectividade de tantas informações ou as falhas e erros de quem produz informação errada são alguns dos perigos da Web 2.0. A teoria do gatekeeping aqui faz sentido. Mas aí não estaremos a condicionar a construção colectiva de conhecimento em que uns são filtrados e outros não? Com a possibilidade de todos os utilizadores produzirem informação, será fácil controlar a quantidade massiva de conteúdos? Deixando estas perguntas no ar, podemos então dizer que a “Torre de Web 2.0” está a ser construída por todos nós. Tijolo a tijolo, todos nós queremos chegar ao conhecimento absoluto e deixar a nossa marca. Resta esperar para ver se realmente a torre vai cair e ficaremos incapazes de comunicar ou se a torre vai continuar até à Web 3.0.

Bibliografia:

LÉVY, Pierre, As tecnologias da Inteligência – O futuro do pensamento na era da Informática, Lisboa, Instituto Piaget, Epistemologia e Sociedade, 1990
PRIMO, Alex, “O aspecto relacional das interações na Web 2.0” in XXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Brasília, 2006 (disponível em http://www.ufrgs.br/limc; acedido a 31/10/2007)
WOLTON, Dominique, E depois da Internet?, Difel Difusão Editorial, 1999.

http://newwikimedia.wikispaces.com/Recens%C3%A3o+Cr%C3%ADtica

"Formação interdisciplinar: exigência sóciopolítica para um mundo em rede"*

Prof. Dr. Holgonsi Soares Gonçalves Siqueira

* Artigo referente à conferência de mesmo título, proferida pelo autor na abertura do VII Simpósio Estadual de Economia Doméstica (tema: "Interdisciplinaridade no con-texto universitário"), na UNIOESTE, campus de Francisco Beltrão-PR, em 08/12/2003



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1- INTRODUÇÃO

No contexto pós-moderno, marcado por profundas mudanças de todas as ordens, a questão referente à formação interdisciplinar dos indivíduos vem se fazendo presente com muita força nos espaços educativos formais e informais.

Um grande grupo, formado por aqueles que estão mais voltados para a nova confi-guração global do mundo do trabalho, defende que a preocupação central da educação deve ser, principalmente, formar uma mão-de-obra competente (para usar a palavra em vigor). Para isso destacam, como exigência básica, uma formação interdisciplinar, que, sob essa ótica, fica associada às novas formas de organização do mundo do trabalho e da produção resultantes da acumulação flexível de capitais.

Há também os que defendem esse tipo de formação, mas com um objetivo basica-mente político, ou seja, a transformação das condições socioeconômicas cada vez mais perversas para a maioria da população, passa por indivíduos capazes de ver/entender o mundo e suas problemáticas, não de forma fragmentada, mas sim através de uma visão interdisciplinar (leia-se "inter-relacionada") das questões políticas, econômicas, socioculturais e tecnológicas contemporâneas. Nessa visão, a formação interdisciplinar associa-se a uma participação política ativa.

A partir dessas posições, este artigo tem como objetivo principal destacar a impor-tância de uma formação interdisciplinar, tendo como argumento central que o mundo pós-moderno (do capitalismo multinacional ou tardio) é um mundo em rede, e a compreensão de suas novas problemáticas e seus riscos e de tudo o que nele acontece (e que repercute em todas as arenas da vida) passa pela exigência de uma formação interdisciplinar.

Assim, delimitarei a análise tendo por base o viés sóciopolítico do debate, porém não nego a importância do econômico, ou seja, também defendo uma formação interdisciplinar devido a uma exigência do novo mundo do trabalho, mas vou privilegiá-la aqui como uma possibilidade para que nossas escolhas, a partir da compreensão deste novo contexto, sejam feitas de maneira que contribuam para um mundo mais solidário, mais justo, mais democrático e, consequentemente, com uma melhor qualidade de vida.

2- FORMAÇÃO INTERDISCIPLINAR: exigência sóciopolítica para um mundo em rede

"Trabalhar, viver, conversar fraternalmente com outros seres, cruzar um pouco por sua história, isto significa, entre outras coisas, construir uma bagagem de referências e associações comuns, uma rede hipertextual unificada, um contexto compartilhado, capaz de diminuir os riscos de incompreensão" (Pierre Lévy, 1993, p. 72-3).

A noção de rede hoje nas ciências humanas diz respeito a uma "acepção" inédita e muito ampla do termo e, de acordo com Bruno Latour (citado por Dosse, 2003, p. 132) "as redes são ao mesmo tempo reais como a natureza, narradas como o dis-curso, coletivas como a sociedade".

Existem inúmeras interpretações para o termo "rede", que vão da antropologia à informática, passando pela política, pela economia, etc. Uso o termo aqui para dizer que o mundo hoje é um mundo conectado em tempo real e que, por isso, os acontecimentos globais influenciam nossa vida cotidiana e, por sua vez, os acontecimentos locais repercutem na arquitetura global. Em outras palavras, em um mundo em rede, as ações afetam o "mundo-como-um-todo". Uso o termo também para me referir ao estado de conectados em que vivemos, seja no ciberespaçotempo, seja com um microgrupo de ação.

Nas redes, vejo os aspectos sociais, políticos, culturais, econômicos e tecnológicos entrelaçados, e há redes que buscam a mudança social, enquanto outras lutam pela manutenção do status quo. Por isso, as redes de movimentos envolvem desde os que lutam contra a discriminação até os que lutam a favor do racismo. Em rede se organizam os pacifistas, mas também os terroristas, ou seja, sob qualquer forma, vivemos em um mundo em rede.

No centro dessa nova formação sóciopolítica, estão as novas tecnologias de infor-mação e comunicação e suas influências produtivas e não-produtivas sobre o indivíduo pós-moderno. A partir disso, destaco o caráter sóciotécnico das redes, ou seja, as redes conectam sujeito e objeto, mundo da técnica e mundo da consciência, humano e não-humano e, através delas, correm os fluxos de pessoas, de informações, de imagens, de poder e ideologias e também os fluxos de saberes e competências.

Para Dosse (2003) as novas tecnologias tendem a deslocar a noção tradicional de sujeito, a criar próteses tecno-subjetivas, ou como as qualifica Bruno Latour, "híbri-das", e com elas novas formas de sofrimento humano, em uma relação inédita entre, digo eu, uma pós-modernidade avançada ou radicalizada e o mal-estar que todos sentimos/vivemos.

Assim, seguindo o pensamento de Dosse, entendo que somente uma formação interdisciplinar é capaz de nos dar subsídios para enfrentarmos os grandes problemas que afligem a humanidade (como por exemplo, os problemas ambientais, as doenças, a exploração de seres humanos, as desigualdades sociais, o desemprego, a pobreza, a fome e a miséria), a incerteza e o mal-estar que os acompanham, possibilitando-nos uma melhor inteligibilidade do social, e assim projetarmos novas alternativas tanto para os novos problemas como para a intensificação dos antigos no espaçotempo em que vivemos.

Por isso, acho correto afirmar que, através de uma formação interdisciplinar, temos uma compreensão satisfatória da realidade, problematizamos os obstáculos e ampliamos a compreensão do sentido do que se faz, se pensa e sente. É essa formação que permite aos indivíduos interpretar, questionar e não apenas assimilar, construir e não apenas reproduzir.

Com uma formação interdisciplinar também saímos "da rotinização e das falsas garantias com que se enfeitam as disciplinas" (Dosse, 2003, p. 403) e superamos as concepções pobres e mutiladoras, advindas de uma formação disciplinar baseada na fragmentação.

Concordo com Wallerstein (1999), que a fragmentação se justifica "apenas" por uma questão política, pois concretamente não encontramos nada mais que valide as reivindicações intelectuais à separação. Os pretensos critérios caíram por terra e, quando insistem em se manter, são obstáculos à criação de novos conhecimentos e a uma visão de totalidade do homem e do mundo.

Um mundo em que "...não há paradigma verdadeiramente unificador, mas uma constelação de disciplinas engajadas...o que leva a questões sobre as fronteiras que separam as disciplinas, sobre sua especificidade, sua historicidade, seu objeto..." (Dosse, 2003, p. 241). A formação interdisciplinar, tendo como categoria central a inter-relação, possibilita aos indivíduos estabelecerem vínculos de confluência, transgredirem as fronteiras tradicionais e articularem, em suas várias dimensões, os saberes fragmentados.

Porém quero destacar aqui que, no mundo em rede, não só as fronteiras que sepa-ram as disciplinas são questionadas, mas, na verdade, toda e qualquer fronteira perde seu sentido tradicional. Somos novamente colocados frente à tradicional opo-sição entre corpo e espírito, sujeito e objeto, razão e emoção, enfim, temos que en-frentar o questionamento da fragmentação e, consequentemente, os obstáculos e as possibilidades das relações (multidisciplinaridade), e, principalmente, das inter-relações (interdisciplinaridade).

O mundo em rede não é um mundo homogêneo e rígido, mas sim hiperplural, inde-terminado e que se caracteriza pela flexibilidade e pela imprevisibilidade das mudanças e aceleração de seu ritmo. Sob este aspecto, há a necessidade de uma formação interdisciplinar porque esta não se assenta em leis universais, com regularidades e permanências, pois reconhece que a realidade é complexa e, portanto, não cabe em esquemas reducionistas.

Justifico também as exigências para uma formação interdisciplinar, porque estamos em um mundo em rede, em que são indeterminados os pontos de acesso, as ques-tões e suas respostas são infinitas, os diversos mídias passam por um processo de íntima associação, as organizações científicas são diversificadas, descentralizadas e transitórias, o saber reflexivo é valorizado bem como as "comunidades de saber" (P. Lévy), as quais visam articular o saber individual e coletivo.

Nesse contexto, a intertextualidade da vida é descortinada a todo instante, uma vez que nossa vida é formada por uma cadeia complexa e dinâmica de inúmeros ele-mentos, constituindo-se, dessa forma, em um hipertexto por excelência. Mas se por um lado a vida como um hipertexto é interdisciplinar por natureza (e aqui especifico: nosso corpo, nossas ações, as cidades...o mundo), por outro, ela exige uma formação de mesma orientação (interdisciplinar) para sua leitura.

Com base nessas idéias, destaco (sem o objetivo de esgotar) como características principais de uma formação interdisciplinar:

1) está em constante movimento de re-construção, e não despreza nenhum elemento para sua renovação, sejam eles humanos, técnicos, palavras, imagens, (e tudo o que a eles se relaciona);

2- entende cada elemento como portador de possibilidades para inúmeras inter-relações, as quais, à medida que vão se desvelando, vão enriquecendo nossa visão da vida e nossa visão de mundo;

3- não vê/compreende/interpreta os textos e contextos de forma linear, mas a partir do diálogo entre cada interconexão que se estabelece, ficando livre para o indivíduo, de acordo com sua biografia, tecer a sua rede e seus significados próprios, o que está de acordo com o conceito de produção e não de re-produção, e,

4- reconhece que todas as coisas são incompletas, por isso não combina com inér-cia intelectual.

Considerando essas características, algumas mudanças radicais se fazem necessárias nos atuais espaços educativos formais para se trabalhar com o objetivo de uma formação interdisciplinar, entre elas:

- da rigidez para a flexibilidade, em todos os aspectos da estrutura educacional;

- do paternalismo para a autonomia dos alunos, para que os mesmos se desenvol-vam como atores capazes de reativarem múltiplas possibilidades e proporem novas interpretações;

- de professores reprodutores para educadores autônomos que, como diz Demo (1993), possam elaborar projetos políticos próprios;

- de uma metodologia marcada pelo seqüenciamento linear para uma marcada pela não-linearidade;

- da certeza e correção para abertura e aceitação da incerteza e do erro, conside-rando-os como condições de possibilidades para novos arranjos;

- da voz única do professor para uma multiplicidade de vozes (amplos espaços dia-lógicos), possibilitando-se, assim, a realização da "democracia dialógica" e da pro-dução de novas formas de conhecimento, subjetividade e identidade.

- por fim, resumindo todos esses pontos e tendo por base o pensamento de Doll Jr. (1997), afirmo que uma formação interdisciplinar só será possibilitada por estruturas educacionais que não sejam norteadas pelos princípios dos sistemas fechados (ca-racterísticos da modernidade, que só transmitem e transferem), mas sim pelos prin-cípios dos sistemas abertos (característicos da pós-modernidade e que têm a mu-dança por essência).

Entendo, porém, que essas mudanças somente se processarão com sucesso, quando a escola/universidade estabelecer novas conexões com outros "jogos de linguagem" (Wittgenstein/Lyotard), com outros espaços educativos (sejam eles de cunho político, artísto-cultural, econômico, etc.) potencializadores por excelência do viés sóciopolítico de uma formação interdisciplinar. Mas jamais atribuo a responsabilidade por novas conexões apenas à escola/universidade. Os indivíduos também devem procurar, por si, participar desses espaços educativos informais, sendo, reafirmo, essa a única maneira de se ter uma formação efetivamente interdisciplinar.

Cabe, isto sim, à escola/universidade reconhecer que, em um mundo em rede, um currículo rígido que privilegia apenas o ensino das disciplinas tradicionais (e na maioria das vezes ainda de forma fragmentada), não será capaz de atender às exigências da formação interdisciplinar. Portanto, deverá a escola/universidade integrar essas participações no currículo dos alunos, o que, por sua vez, abre oportunidades para que eles exercitem sua autonomia na composição de suas grades curriculares.

Acho relevante destacar que uma formação interdisciplinar também diz respeito à formação de indivíduos aptos ao novo mundo do trabalho, o qual é marcado por mudanças que se assentam nos saberes e competências dos indivíduos e, cujas possibilidades, passam por uma formação interdisciplinar que possibilite ao indivíduo combinar saberes, competências e percepção ética em um contexto de trabalho marcado pela presença das novas tecnologias.

O problema em relação a essa questão está no fato de tomá-la de forma isolada da-quelas que levantei anteriormente. Nesse caso, usando a linguagem de Lyotard (1986), a interdisciplinaridade nada mais seria que um instrumento para incrementar a performance dos indivíduos no trabalho, deixando-se de lado a busca da autonomia política e da realização da vida humana.

Portanto, a formação interdisciplinar que defendo resulta de uma metodologia inter-disciplinar voltada para a formação "onilateral" (seguindo uma concepção Gramsciana) do indivíduo. Dessa forma considera que o fundamento do ato educativo constitui um sistema formado por um conjunto de dimensões de ordem política, sociocultural, econômica e tecnológica.

Relembrando a citação inicial que usei de P. Lévy, eu diria que a formação interdis-ciplinar é intrinsecamente rica nas possibilidades para construção de bagagens de referências e associações comuns, é ela que nos abre o compartilhamento de con-textos. Em um mundo em rede marcado pela emergência das diferenças, é através de uma formação interdisciplinar que poderemos respeitar o Outro como ele é (como diz o próprio Lévy: e quem é o Outro? É um Ser que sabe), estabelecer com o Outro o diálogo, cruzando por sua história.

Sendo assim, em última instância afirmo que as possibilidades de "democracia dia-lógica" como uma condição da solidariedade social e assim a diminuição dos riscos de incompreensão passam, necessariamente, por uma formação interdisciplinar, o que a coloca como uma exigência sóciopolítica para um mundo em rede.



3- CONSIDERAÇÕES FINAIS

A formação interdisciplinar constitui-se uma exigência básica na sociedade contemporânea. Deve ser tomada como um imperativo dos mais importantes das novas condições da produção do conhecimento científico, como também das novas condições de ser e de estar no mundo em rede. Suas dimensões econômica, política e sociocultural não devem ser dissociadas, pois isso a descaracterizaria como tal.

No que tange à constituição de um mundo em rede, marcado pela complexidade, uma formação interdisciplinar não só possibilita uma efetiva compreensão desse mundo como é o que melhor capacita os indivíduos nas tomadas de decisões e nos processos de escolhas.

Já no mundo do trabalho, profundamente alterado por novas tecnologias, a forma-ção interdisciplinar facilita os indivíduos no desenvolvimento de novos saberes e novas competências que hoje estão sendo requisitados.

Uma formação interdisciplinar está em sintonia com o tempoespaço do qual faz par-te, insiste nas ações em movimento, e suas produções são contextualizadas. Sendo assim, tem por base a mutabilidade (e, portanto, a abertura para o novo), a flexibilidade, a não-linearidade e o respeito pelas diferenças.

O discurso sobre essa formação está bastante presente nos espaços educativos formais, porém sua efetivação ainda é uma utopia para os educadores preocupados com uma educação crítica e que por isso mesmo deve corresponder às necessida-des do contexto histórico em que está inserida.

As possibilidades de ações interdisciplinares por parte da escola/universidade, que venham a colaborar na formação interdisciplinar dos indivíduos, dependem de mu-danças radicais nessa instituição, mudanças estas que rompam com a rigidez que ainda é predominante em toda a estrutura educacional.

Isso se relaciona com questões de ordem econômica, sociocultural, pedagógica e, principalmente, política, porque as estruturas institucionais (entre elas as educacio-nais) que dão respaldo a atitudes fragmentárias somente serão atingidas quando o trabalho interdisciplinar for capaz de uma forte influência política.



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4- NOTAS

1 Estou me referindo ao conceito de globalização dado por Giddens (1991), segundo o qual a globalização diz respeito à intensificação das relações sociais em escala mundial e às conexões entre as diferentes regiões do globo, por meio das quais os acontecimentos locais sofrem a influência dos acontecimentos que ocorrem a muitas milhas de distância e vice-versa.

2 Expressão do sociólogo Roland Robertson para definir a globalização.

3 Segundo Wallerstein (1999), o qual toma por base a infundada divisão entre as ciências sociais, estes critérios são: nível de análise, objeto, métodos, pressupostos teóricos.

4 Aqui Dosse destaca: as neurociências, a psicologia, a lingüística, a filosofia, a an-tropologia e a informática.

5 Torna-se necessário destacar que, ao trabalharmos com ações interdisciplinares, não devemos negar a importância das disciplinas, porque é através dos conheci-mentos e interesses adquiridos através de uma disciplina que se pode despertar o interesse para aproximações interdisciplinares. Porém, jamais devemos tomar como princípio a tendência limitadora implícita em cada disciplina.

6 Conceito de Giddens (1997), que significa "o reconhecimento da autenticidade do outro, cujas opiniões e idéias estamos preparados para ouvir e debater, como um processo mútuo" (p. 130).

7 Ao contrário da lógica fordista, caracterizada pela centralidade dos conceitos de trabalho manual, produção de bens e fadiga, nas novas formas de organização do trabalho (pós-fordistas) os saberes e competências constituem-se objetos centrais da produção.

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4- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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http://www.angelfire.com/sk/holgonsi/mundorede.html

A Imagem na Web: Fotojornalismo e Internet
Jorge Carlos Felz Ferreira1


Índice
A Internet como artefato cultural
Os novos modos de ver
Jornalismo Online
O Fotojornalismo na Web
Bibliografia
Resumo: As novas tecnologias e os novos meios de comunicação introduziram no-vos formatos e mudanças no fazer jornalístico. Com a Internet, surgiu o webjornalis-mo que se , a princípio utilizou as linguagens e modelos já estabelecidos, hoje tem características e padrões próprios. Este trabalho busca caminhos para compreender como se dá a representação do mundo, conhecida e experimentada por meio da imagem fotográfica produzida e veiculada por meio do jornalismo online. A constru-ção de uma historiografia da visualidade na comunicação de massa ou mediada; o espaço, as características e o papel assumidos pela imagem jornalística disponível na Web também são parte fundamental deste percurso ou reflexão.

No final do século XX, o filósofo Michel Serres já dizia que a nossa relação com o mundo estava em transformação. Já não tínhamos uma relação local - local, mas uma relação local - global, pois cada vez mais a terra nos aparecia, era mostrada por inteiro. Estas visões eram obtidas por meio das imagens de televisão transmitidas por satélites.

Outros autores (TOFFLER, 1984; LÉVY, 1994; CASTELLS, 2000) há anos anunciam que as transformações em curso na sociedade devem nos levar a uma nova estrutura social: a sociedade da informação mediada, principalmente, pelo computador.

Durante milhares de anos o homem foi um ser puramente visual. Mas nos últimos cinco mil anos de cultura e de forma mais efetiva nos últimos 500 anos com o livro impresso, o homem deixou esta visualidade de lado em detrimento do verbal/ escri-to. Para Havelock,


A transformação que se opera hoje a uma velocidade vertiginosa é o resultado de um longo ciclo de mudanças iniciado com o aparecimento da linguagem, que desencadeou um processo de desenvolvimento das capacidades cognitivas do homem (...) a emergência de um novo discurso conceptual e, logo, de um novo estado mental (...) (HAVELOCK, 1982).
O advento das novas tecnologias de informação, especialmente a Internet, parecem provocar uma nova revolução no acesso à informação, agora armazenada em novos suportes eletrônicos e em espaços não topológicos e, como conseqüência direta, um retorno à visualidade na comunicação mediada. Em outras palavras, a comunicação antes mediada pela escrita, tem sido afetada pela mediação dos sistemas virtuais.

A Internet como artefato cultural
Muitas vezes nos referimos a esta sociedade, como um ambiente repleto de auto-estradas da informação e onde, quem circula, adquire maior conhecimento, sendo as ferramentas tecnológicas, apenas e tão só, um meio de as percorrer. É nesta perspectiva que Dominique Wolton define a Internet como a ``rede constituída por diferentes redes interconectadas à escala mundial. É o percursor das auto-estradas da informação'' (WOLTON,2000. p.10).

Entretanto, se pensarmos assim, incorremos numa redundância uma vez que a informação não é automaticamente sinônimo de conhecimento, mas resultado de um processo de aprendizagem dinâmico, e experiência de uma construção individual. Além disso, falar de auto-estrada, torna-se impróprio pois lidamos com um espaço não linear conhecido como Net (rede) ou Web (teia), onde se tecem contínuas e particulares ligações.

A Internet é mais que uma tecnologia que permite o acesso à informação e onde os sujeitos são meros usuários. Estes sujeitos são na verdade, seres sociais que (re)constróem intersubjetividades no processo de ``navegação'', transformando esta tecnologia em tecnologia social. Como uma ``tecnologia social utiliza os mesmos métodos de forma a permitir que indivíduos com interesses similares se encontrem, falem, ouçam e construam um leque de sociabilidades'' (CARDOSO, 1998. p. 25), importa ainda considerar a Internet enquanto artefato cultural e espaço de produção cultural.

Enquanto artefato cultural, seguindo uma lógica descentralizada, a Internet permite um fluxo ininterrupto de informações, abrangendo cada vez mais pessoas em suas malhas e pontos de conexões. A Internet é mais do que uma rede mundial de com-putadores que se comunicam, permitindo uma maior interatividade do que, por e-xemplo, a televisão. A Internet permite uma relação local - global muito mais próxima e mais constante, mas condicionada pelos aspectos socioculturais dos contextos em que se insere e dos sujeitos que a utilizam.

Enquanto espaço de produção cultural, a Internet, por lidar com um espaço virtual, desterritorializado, acentua uma cultura dispersa pelas suas redes e pontuada pela deslocalização do saber, em contraste com a cultura tradicional, herdeira de um sa-ber uniformizado e estabelecido na linearidade do livro (relato verbal e/ou escrito).


Os novos modos de ver
O espaço e o tempo do saber baseado no impresso é diferente do espaço e do tem-po a que os usuários da Internet cada vez mais se habituam:
``as metáforas centrais da relação com o saber são (...) hoje a navegação e o surfe, que implicam uma capacidade de enfrentar as vagas, os redemoinhos, as correntes e os ventos contrários sobre uma extensão plana, sem fronteiras e sempre variável'' (LÉVY, 2000. p.172).
A memória apelativa e compartimentada vai, aos poucos, dando espaço à interativi-dade da inovação, do fazer contínuo de textos que se (re)escrevem de acordo com as necessidades dos indivíduos.

Para Lévy (2000), a construção do conhecimento não se dá como um processo en-ciclopédico, ``totalizável e adicionável''. É uma viagem de contínuos movimentos de avanços e recuos, de construção e reconstrução, de elaboração e seleção de infor-mação, de interação com os outros.

Para mover-se entre esse imenso arquivo de informação que é a Internet, o usuário se utiliza de percursos pessoais advindos das características intrínsecas ao hipertexto. Landow afirma que ``o hipertexto (...) implica um texto composto por fragmentos de texto - o que Barthes denomina de lexias - e os nexos eletrônicos que os conectam entre si'' (1995, p.15). Na mesma linha, Lévy define-o como

um texto estruturado em rede (...) constituído por nós (os elementos de informação, parágrafos, páginas, imagens, seqüências musicais, etc.) e por ligações entre esses nós, referências, notas, apontadores, ``botões'' que sinalizam a passagem de um nó ao outro (LÉVY, 2000. p.61).

O hipertexto possui características que permitem o jogo da exploração, induzem o usuário numa sucessão de processos associativos e argumentativos que o conduzirão à elaboração de novos ferramentais cognitivos.

Para Lévy, se o livro impresso trouxe a ``possibilidade de folhear, de acesso não linear e seletivo ao texto, de segmentação do saber em módulos, de ramificações múltiplas a uma infinidade de outros livros graças às notas de pé de página e às bibliografias'' (1994:44), o hipertexto vai proceder alterações importantes nessa rela-ção refletidas imediatamente no processo de aprendizagem, de apreensão e repre-sentação de mundo. Este processo de aprendizagem, mais próximo do da vida real, afasta-se do ``saber de cor'' e aproxima-se da ``memorização a longo prazo'' (LÉVY, 1994).

Os novos modos de perceber e, especialmente, vero mundo, a partir do advento de novas mediações, estruturas comunicacionais, a exemplo da Internet ainda são pouco discutidos. Há uma tendência a se discutir as possibilidades de desenvolvimento tecnológico e as possíveis aplicações da nova tecnologia sem, na maioria dos casos, fazer as reflexões necessárias para a compreensão dos rumos que estamos dando à sociedade e às formas de representação de mundo.

Assim, será preciso (re)constituir o processo evolutivo da imagem, enquanto forma de comunicação mediatizada, buscando um entendimento do novo protagonismo que esta assume na busca dos referenciais da sociedade moderna.

A representação de mundo, mediatizada pelas novas tecnologias, pode ser estuda-da a partir uma de suas várias possibilidades, como no nosso caso, nas páginas e sites de jornais online. Nosso foco porém, volta-se para o fotojornalismo na Web, pois

a fotografia é destacadamente o recurso mais empregado, permitindo constatar que as potencialidades multimidiáticas oferecidas pelo suporte digital para a construção da narrativa jornalística segundo um formato convergente - com o áudio e o vídeo - são usadas ainda de maneira muito limitada. Nas telas de abertura dos jornais ob-servados não foi constatada a utilização de recursos multimídia. Além do texto, so-mente fotografias são usadas. Dos 44 jornais, apenas dois utilizam o áudio (O Esta-do de São Paulo e A Tarde Online -BA) e dois o vídeo em suas edições (O Estado de São Paulo e o Jornal NH, de Novo Hamburgo, RS). Simulações não foram encontradas em nenhuma publicação. Gráficos, figuras, tabelas e animações aparecem de forma secundária. (PALÁCIOS & MIELNICZUK, 2001. p.10)
A fotografia empregada na Web, como recurso de narrativa jornalística, que inclui a possibilidade de uma maior interatividade, de personalização e memória decorrentes diretas das características da própria Internet é um elemento multimídia passível de ser utilizado na webnotícia. Segundo Canavilhas (1999), ``a imagem colhida no local do acontecimento (...) a verdade da imagem recolhida no local empresta à notícia uma veracidade e objectividade maior do que a simples descrição do acontecimento'' (CANAVILHAS, 1999. p.05)

Não podemos dizer que há diferenças fundamentais entre a imagem fotográfica empregada na Web e a usada no jornalismo impresso. A imagem fotográfica na Web, assim como no impresso, em certas ocasiões assume o papel de texto autônomo. A imagem jornalística, deve prescindir de uma legenda ou um texto escrito cuja função é contextualizadora. Isto é, é regra do fotojornalismo, indiferen-temente do suporte, que a imagem produzida seja legível e compreensível.


``Mas no caso da imagem informativa, é evidente que esta desperta curiosidade e incerteza e, por isso, o espectador/leitor recorre ao comentário verbal.(...) Toda a representação da imagem informativa se constrói em torno de um discurso retórico com as suas próprias regras de funcionamento (mostrar a causa a partir do efeito, mostrar a parte pelo todo, produzir redundância em detrimento da quantidade de informação semântica).'' (VILCHES 1985. p. 175)
Talvez a grande diferença seja mesmo o suporte técnico destas imagens. No jorna-lismo online, as imagens fotográficas se aproximam dos frames da televisão / vídeo, resultado de milhões de pixels numa tela. No impresso, a imagem é resultado da ação físico-química da luz sobre milhões de grãos de prata (pontos). Se no impres-so, o leitor tem em mãos a imagem, na Web o usuário perde parte da emoção transmitida, mas não perde o papel legitimador da imagem.


Jornalismo Online
Antes da criação da Web, alguns experimentos já se utilizavam das redes de computadores para a produção, e veiculação de material jornalístico. Será a partir dos anos 90, com a rápida evolução da Internet, que esta será utilizada como suporte para uma nova forma de fazer jornalístico. Num primeiro momento, se fez a simples transposição dos padrões do jornalismo impresso para a Internet; num segundo, iniciam-se experiências novas, híbridos com construção de uma linguagem e modelos próprios. Num terceiro momento, aparecem sites e produtos exclusivos, pensados de forma mais apropriada para a Internet. Vale ressaltar que, de modo paradoxal, tais modelos não se bastam . Muito menos um substitui o outro, mas ao contrário, convivem harmoniosamente num universo ainda em construção.

Esta situação talvez derive do funcionamento descentralizado e quase caótico da Internet, que permite usos e apropriações variadas. No caso do jornalismo online2, as diferentes experiências hoje se traduzem numa gama ampla de formatos e conteúdos variados. Assim vamos hoje das edições online dos jornais, com similares impressos, muitas vezes meras reproduções destes, passando pelos grandes portais, que agregam informação jornalística, serviços e entretenimento e chegando até aos portais locais, voltados para certas cidades ou regiões e que se concentram na oferta de conteúdos e serviços específicos.

Vários autores têm discutido as características do jornalismo online. Bardoel & Deu-ze (1999) apontam quatro características básicas: interatividade, customização de conteúdo, hipertextualidade e multimidialidade. Palácios (1999), estabelece um quinta: memória.

Os estudos desenvolvidos por grupos latino-americanos como o Grupo de Jornalis-mo Online da FACOM - UFBA, e ainda em São Paulo por pesquisadores como Squirra e Lima Jr., entre outros também oferecem suporte para a reflexão de como estas características podem afetar a imagem jornalística veiculada na Web.

Para o nosso estudo, as características mais importantes são:

Interatividade - Bardoel e Deuze (2000) consideram que a notícia online possui a capacidade de fazer com que o leitor/usuário sinta-se parte do processo. Isto pode ocorrer pela troca de e-mails, colunas de `opinião de leitores', fóruns de discussões, debates via chats... Entretanto, segundo Lemos, o correto não seria pensarmos em interatividade, mas em processos interativos. ``Diante de um computador conectado à Internet e acessando um produto jornalístico, o usuário estabelece relações: a) com a máquina; b) com a própria publicação, através do hipertexto; e c) com outras pessoas - seja autor ou outros leitores - através da máquina.'' (LEMOS, 1997).

Customização do conteúdo / Personalização - é a possibilidade de personalização ou individualização, dos os produtos jornalísticos de acordo com os interesses indi-viduais do usuário. Alguns sites permitem a pré-seleção de assuntos que interessam ao usuário. Estes assuntos é que serão carregados quando do acesso. Também se pode falar de personalização, quando um site oferece um banco de imagens como complemento a uma dada notícia. Dá-se ao usuário a possibilidade de escolher quais imagens serão usadas como conteúdo da notícia, ou mesmo optar por uma único e novo registro visual.

Hipertextualidade - específica da natureza do jornalismo online, possibilita interco-nectar textos através de links. Bardoel e Deuze (1999) chamam a atenção para a possibilidade de, a partir do texto noticioso, apontar para outros textos, como origi-nais de releases, outros sites relacionados ao assunto, material de arquivo dos jor-nais, textos que possam gerar polêmica em torno do assunto noticiado, entre outros.

Multimidialidade / Convergência - No contexto do jornalismo online, multimidialidade, refere-se à convergência dos formatos das mídias tradicionais (imagem, texto e som) na narração do fato jornalístico (PALÁCIOS & MIELNICZUK, 2001). No caso específico do fotojornalismo na Web, tal multimidialidade avança os conceitos próprios da imagem jornalística e o uso desta, com a possibilidade de manuseio digital e mesmo da apropriação e mudança dos formatos pelo receptor.

Memória - a Internet amplia a possibilidade de acumulação de informações. A me-mória antes restrita ao cérebro e aos suportes técnicos tradicionais, passa a ser u-sada, recuperada e (re)construída de forma ilimitada. Como se trata de uma nova forma de lidar com o espaço/tempo, trata-se de uma memória de caráter múltiplo, instantâneo e cumulativo. A Web possibilita a utilização de um espaço praticamente ilimitado para o material noticioso, seja como texto, seja como qualquer outro forma-to midiático, uma vez que o hipertexto não se traduz apenas no emprego de texto escrito, formal, mas também se refere a uma imagem ou som, gráfico, animação, vídeo,...
Partindo da idéia inicial de que o jornalismo online é sem dúvida, uma nova forma de jornalismo, uma nova narrativa adaptada à Web, e resultado da possibilidade de convergências/ multimidialidade que a Internet é capaz de oferecer, e, muito embora haja uma discussão acadêmica estabelecida em torno do uso de termos como jornalismo online, jornalismo digital, webjornalismo, emprego aqui, assim como Palácios (2002), os termos jornalismo online, webjornalismo, jornalismo na Web para denominar indistintamente as produções jornalísticas que utilizam como suporte a WWW (world wide Web) da Internet. Discussões à parte, o que deve ficar claro é que,

(...) se, para o jornalista, a introdução de diferentes elementos multimédia altera todo o processo de produção noticiosa, para o leitor é a forma de ler que muda radicalmente. Perante um obstáculo evidente, o hábito de uma prática de uma leitura linear, o jornalista tem de encontrar a melhor forma de levar o leitor a quebrar as regras de recepção que lhe foram impostas pelos meios existentes. (CANAVILHAS, 1999)

O Fotojornalismo na Web
Visto num sentido lato, o fotojornalismo caracteriza-se pela finalidade, pela intenção, e não tanto pelo produto. Este pode estender-se das fotografias unárias3a que Barthes (1984) tanto se refere em sua obra póstuma, às reportagens mais elaboradas, partindo da fotodocumentação às fotos "ilustrativas".

Já numa visão mais específica, o fotojornalismo distingue-se e se afasta da fotodo-cumentação. Esta distinção reside mais na prática e no produto do que na finalidade. O fotojornalismo compreenderia tão somente as imagens do dia-a-dia, do cotidiano e de tragédias, e as fotos ilustrativas. Se diferenciará também da fotodocumentação pelo método: enquanto o fotojornalista raramente sabe exatamente o que vai fotografar, como o poderá fazer e as condições que vai encontrar, o fotógrafo documental trabalha com projetos: quando inicia um trabalho, há um conhecimento prévio do assunto e das condições em que pode desenvolver o plano de abordagem do tema que anteriormente traçou.

Essas distinções mereceriam novas reflexões quando tratamos da imagem, fotojor-nalismo na rede, online. Isto porque, além de se constituir um registro do cotidiano, em ilustração e/ou complemento de relatos ancorados na escrita, com a construção dos bancos de imagens, disponíveis virtualmente, as fotografias digitais também têm um uso como registro histórico e documentação, memória

O fotojornalismo na Web dá-se por dois meios. Como um procedimento analógico, baseado em foto - scanner - Web e, mais recentemente, com as evoluções da tecnologia digital, em um outro, mais rápido e dinâmico: máquina - Web. Neste segundo caso, a velocidade é fator fundamental e característica principal. Maior velocidade, maior número de imagens, menor custo e em menor tempo.

Estes procedimentos permitem uma velocidade de atualização quase em tempo real e recursos de memória ilimitados, principalmente com o emprego de bancos digitais de imagens. É uma evolução daquela fotografia descoberta por Niépce no início do século XIX.

Com a capacidade de arquivo dos bancos de imagem a possibilidade das reporta-gens terem não apenas uma imagem, mas várias, é quase ilimitada e, detalhe importante, com a eliminação dos custos extras: fotolitos, ampliações, etc.

Já não é mais somente o editor o responsável pela imagem que irá acompanhar o texto da reportagem. O leitor/ usuário, com um clique, pode escolher uma entre vá-rias opções de imagem, visualizá-la em diferentes formatos, arquivar, copiar, enviar para outro internauta. E tudo isso quase em tempo real e sem custos adicionais e sem a necessidade de equipamentos sofisticados.

Para Walter Benjamin a fotografia, imagem fotográfica ``submete o único à reprodu-ção - contribuindo para a derrocada da `aura' e multiplica as possibilidades de per-cepção do semelhante'' (BENJAMIN, 1985). No caso do acervo fotográfico disponí-vel na rede, especificamente nas páginas de jornais online, essa multiplicação seria ainda maior, bastando apenas um clique, não do equipamento fotográfico, mas do mouse ou teclado. Benjamim vislumbra as imagens visuais (fotografias) como uma sucessão de agoras ou do instantâneo que contrai o passado e futuro, e reconhece que uma imagem será sempre um paradoxo: ``transitoriedade e reprodutibilidade''.

Clifford(1988) e Burnet(1995), ressaltam a importância de se dedicar mais atenção aos significados culturais colocados pelas imagens, e também às formas como a produção e a leitura dessas imagens são mediadas. As imagens visuais, ainda que isso pareça à princípio uma redundância, parecem conter não somente mensagens, mas também alguns dos mapas necessários para compreender estas mensagens.

Outro fator importante no processo de comunicação que se estabelece na rede mundial de computadores é a universalidade da imagem já destacada por Squirra: ``As fotografias estão fortemente presentes na vida do ser contemporâneo.(...) Fa-zem parte de nosso cotidiano e constróem nossa visão de mundo. (...) percebe-se a chegada de uma nova gramática visual no mundo ciberespacial'' (SQUIRRA, 1999).

Estas questões se refletem não apenas na compreensão do espaço, características e papel do fotojornalismo, mas também nos levam a pensar como as características (memória, interatividade, personalização... ) da Internet vão, de forma marcante, afe-tar a produção das imagens.

Partindo desse pressuposto, com o acesso às imagens e seu consumo em outro suporte, ainda que no caso da virtualidade esse termo careça de maior reflexão, seria necessário repensar os caminhos e roteiros, no mapeamento de cenas que se constróem no tempo, no que alguns conceituam como ciberespaço.


Bibliografia

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WOLTON, Dominique, E depois da Internet? - para uma teoria crítica dos novos mé-dias. Lisboa: Difel, 2000.

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Notas de rodapé
... Ferreira1
Professor de Fotografia e Novas Tecnologias (FAESA) - Mestrando UMESP.
... online2
Jo Bardoel e Mark Deuze (1999), referem-se ao jornalismo online como a quarta espécie de jornalismo, uma espécie ainda híbrida, derivada do impresso, do rádio e da televisão, com características próprias mas ainda muito pouco discutidas.
... unárias3
Para Roland Barthes, no fotojornalismo poderíamos inferir a existência de um campo formado por fotografias únicas que condensam uma representação de um acontecimento e um seu significado, as quais eles denominou ``fotografias unárias'', pois se bastam em si próprias.
http://www.bocc.ubi.pt/pag/_texto.php3?html2=felz-jorge-imagem-web-fotojornalismo-internet.html

Educação a distância: fim das barreiras espaciais?

Eduardo Pimentel Menezes
UFF - epmenezes@ig.com.br



A – Formação de Profissionais para Educação a Distância
2 – Educação Universitária


RESUMO
O propósito desse trabalho é analisar as relações entre o discurso atual do ensino a distância e o significado do espaço, enquanto categoria histórica. O surgimento de novas tecnologias e o seu papel na apropriação do espaço convida a uma reflexão sobre a sua contração e sua redução de significado e conceito a uma mera categoria do tempo. Dessa forma, pretende-se levantar uma reflexão sobre o papel da Educação a Distância dentro do atual estágio do capitalismo, baseado no processo de acumulação flexível, sugerindo um novo caminho para sua execução e desenvolvimento de suas potencialidades.

Palavras-chave:
espaço – tempo – educação a distância - economia


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ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O ENSINO A DISTÂNCIA

“ Toda luta para reconstruir as relações de
poder é uma batalha para reorganizar as
bases espaciais destas.”
David Harvey, 1993

Ao examinarmos as considerações relacionadas à Educação a Distância e a idéia de espaço por ela remodelado, encurtamento de distâncias, surge a necessidade de discutir e compreender qual a abordagem teórica referente à categoria espaço pre-sente no discurso da EAD.

Sob o nosso ponto de vista, as atuais concepções de tempo e espaço vigentes na sociedade contemporânea encontram-se diretamente relacionadas ao desenvolvi-mento do capitalismo e sua procura de rentabilidade de modo contínuo e sistemáti-co, a partir da organização racional do trabalho. Consideramos oportuna a indaga-ção de HARVEY ( 1993 ): “Como os usos e significados do espaço e do tempo mu-daram com a transição do fordismo para a acumulação flexível ?” O capitalismo reo-rienta o seu sistema de espelhos e o seu sistema imaginário para moldar os valores e hábitos da sociedade, no espaço e no tempo a serem identificados.

Em cada momento de crise o sistema capitalista precisa criar novos valores para substituir e/ou acrescentar àqueles já existentes. Sob esse ponto de vista pergunta-mos: a Educação a Distância apoiada nas novas tecnologias da informação e da comunicação pode estar sendo utilizada para reforçar a criação e difusão de uma nova concepção de tempo e de espaço ? Ao verificarmos historicamente, que existe uma estreita relação entre o controle do espaço, do tempo, do dinheiro e do poder social questionamos se quem os dominam estabelecem as “regras” da sociedade ?

Para compreender o papel que o espaço desempenha, hoje, para os agentes hege-mônicos da sociedade é de fundamental importância questionarmos sobre o sistema de valores atribuídos à categoria espaço, principalmente na questão da Educação. É a partir dessa análise que o papel da Educação a Distância será discutido.


O ESPAÇO COMO SINÔNIMO DE DISTÂNCIA: UMA QUESTÃO DE REPRESENTAÇÃO E DE PERCEPÇÃO.

Acreditamos que o tempo-mundo e o espaço-mundo são abstrações, já que as pes-soas vivem em diferentes lugares e existe a impossibilidade de apreender o mundo. Através da representação do mundo que o mesmo torna-se perceptível. Dessa for-ma a representação e a percepção se fazem mutuamente contribuintes.

Compartilhamos a idéia de que a representação significa reunir, aglutinar, retroce-der, duplicar e apresentar de novo. A representação ocorre pela ausência, sendo comum associar o significado da palavra espaço como simplesmente, a idéia de distância física. Assim podemos nos questionar se a noção de espaço como sinônimo de distância física, estaria veiculada a uma percepção criada pela representação matemática do espaço ? Sob esse ponto de vista, acreditamos que qualquer interpretação de fenômenos contemporâneos a partir de uma leitura espacial pela geografia torna-se limitada. Por essa razão propomos uma discussão do ensino a distância a partir da contestação da utilização do conceito de espaço, como sendo apenas sinônimo de distância física. Sugerimos uma discussão do espaço como sendo social, levando em consideração o mesmo como uma produção de idéias, desejos, comandos e não apenas como atividade econômica-produtiva.

A partir da reflexão anteriormente exposta é que sugerimos a utilização de uma outra forma de conceber, perceber, vivenciar o mundo e a educação a distância. Pretendemos assim, lançar algumas reflexões sobre a seleção de representações hegemônicas como sendo a de todos, especialmente no que diz respeito ao processo de representação do espaço na educação a distância - na qual podemos observar uma proposta de ordenamento territorial. Sob esse ponto de vista compactuamos da idéia de Ferrara, 1996:

A estratégia desse mercado cultural, que mistura em
todos os espaços e lugares idiomas, produtos, paisagens
e etnias torna evidente que é possível manipular o
imaginário a partir de valores globais que moldam uma
sintaxe do imaginário, embora sustentado, aqui e ali, pela
imagem do território fragmentado. P. 48

A partir dessa inspiração teórica que fazemos uma leitura do surgimento das universidades de ensino a distância atuais – UNIREDE ( Universidade Virtual Pública do Brasil ) e CEDERJ ( Centro de Educação a Distância Superior do Estado do Rio de Janeiro ) – baseada em seus modelos e arranjos espaciais veiculados às novas tecnologias de informação e comunicação.

O ESPAÇO DENTRO DA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA

Muitos são aqueles que defendem o ensino a distância nos dias de hoje, como uma forma de democratização do ensino ( FERNANDES, 1993; LUCKESI, 1989; LOBO NETO, 1989 ). A necessidade de se deslocar até os pontos nos quais se realizam o ensino presencial estaria sendo substituída por um movimento mais democrático, no qual as barreiras espaciais seriam superadas e os custos para se ter acesso a cursos em locais distantes estariam sendo reduzidos. Outros ( DEMO, 1989 ) percebem a Educação a Distância como uma forma de educação de massa, que levaria à padronização dos conhecimentos. Já para Pierre Lévy, deve-se estimular novos projetos espaciais para o ensino, principalmente o superior, levando-se em consideração as possibilidades tecnológicas atuais:

Por que construir universidades em concreto em vez de
encorajar o desenvolvimento de teleuniversidades e de
sistemas de aprendizagem interativos e cooperativos
em qualquer ponto do território?( Lévy, 1999, p. 189 ).

ESPAÇO: ABORDAGEM HISTÓRICA

A visão de espaço existente até antes do século XVI se baseava no mundo das qualidades sensíveis, imediatamente acessíveis ao conhecimento. A partir do início da era moderna ocorreu o deslocamento de interesses, a modificação de atitude teórica e prática e, consequentemente, a alteração do critério da verdade e valores. Ocorreu também a substituição do mundo entendido como sendo finito e bem ordenado, pela visão de um universo indefinido e infinito. Além disso, o significado do conceito aristotélico de espaço foi substituído pelo espaço da geometria euclidiana, ou seja, extensão homogênea e indefinida. De acordo com Moreira ( 1997 ):

Daí a importância da filosofia cartesiana no nascimento
e constituição da modernidade, o mundo como encarnação
do espaço-tempo geométrico da arte e materialização do
espaço-tempo mecânico do relógio. p. 51

Na atualidade, a noção de espaço e de tempo derivam das viagens de Fernando de Magalhães, que deu a volta ao redor da Terra, assumindo essa visão como sendo planetária. A nova percepção oriunda das navegações de Magalhães ao redor do planeta, visto com um todo, de certa forma constituiu o embrião da globalização vi-gente nos dias de hoje.

Formou-se uma idéia espacial a partir do reflexo da formação da idéia de tempo. De acordo com Moreira ( 1997 ):

Tempo era, até então, uma noção ligada ao ritmo de mudança
( a sucessão das estações do ano, dos dias e das noites, a
duração da vida ). A noção de regularidade já está aí presente.
Sabia-se que após o dia vinha a noite, após o verão o inverno.
...Havia sucessão, regularidade, constância, mas não sentido
matemático rigoroso de percepção do ritmo temporal da
natureza. p. 51

Com a noção contemporânea de tempo surgiu a noção moderna de espaço como um conjunto de lugares separados uns dos outros, de acordo com uma distância. O tempo simétrico vai traduzir-se no conceito de espaço como distância.

Assim como a viagem de Fernando de Magalhães, que ajudou a mudar a concepção e percepção humana sobre o espaço, acreditamos que esse processo também ocorra nos dias atuais. A grande mobilidade territorial e fluidificação dos espaços viabilizada pelo desenvolvimento das tecnologias de transporte e comunicação propiciam uma nova experiência em relação ao tempo e ao espaço. A educação a distância operada pelas NTIC ( novas tecnolologias da informação e comunicação ) exemplifica a possibilidade acima descrita. A educação “on line” põe o indivíduo em contato com essas novas experiências de tempo e espaço. De acordo com o projeto do CEDERJ ( www.cederj.rj.gov.br/Conheca/proj_ped.htm ):

A educação a Distância media uma relação em que
professor e alunos estão fisicamente separados. A
interação dos estudantes com os docentes e entre si deve
ser garantida por uma comunicação multidirecional,
através de diferentes meios tecnológicos p.01.

Ainda no projeto do CEDERJ é possível observar a seguinte proposta:

Cada aluno será acompanhado a distância por professores
de reconhecida competência e por tutores escolhidos
dentre os mais destacados estudantes de pós-graduação
das universidades públicas do Rio de Janeiro. Poderá
esclarecer suas dúvidas, diariamente, por telefone, fax e
Internet p. 03.



Será que a EAD “on line” trabalha com a concepção de espaço e tempo matemático concretizado pela modernidade ou trabalha com a concepção de espaço e de tempo que surge a partir da pós-modernidade – tempo real e espaço virtual ? Será que as idéias de tempo e espaço da modernidade são antagônicas as concepções de tempo e de espaço da pós-modernidade ? Estaria a EAD produzindo novos arranjos espaciais na sociedade contemporânea ? Quais os valores que estariam embutidos nesses novos arranjos espaciais ? Quais as repercussões na cultura da sociedade, cada vez mais permeada por objetos técnicos ?

Acreditamos ser de grande importância a reflexão sobre as questões anteriormente mencionadas. Dessa forma, se torna possível descobrir qual o papel da EAD nos dias atuais permitindo-nos escolher se queremos enaltecê-lo ou redirecioná-lo para exercer um papel mais democrático na sociedade.

EAD: DOTADA DA CAPACIDADE DE DESTERRITORIALIZAÇÃO ?

No que se refere à educação a distância mediada pelas novas tecnologias da infor-mação e comunicação é possível identificar um processo de desterritorialização em curso. Esse processo estaria ligado a idéia do território dentro de uma perspectiva materialista do espaço. No que se refere a EAD ( educação a distância ) é possível perceber duas dimensões dessa visão: a da materialidade ligada a idéia do ciberes-paço – desterritorialização ligada a idéia de um mundo imaterial ou virtual - e da distância física, relacionada ao que foi desenvolvido nesse trabalho onde a desterritorialização estaria ligada ao fim das distâncias.

Essa abordagem, no que se refere ao processo de desterritorialização promovida pela EAD contemporânea, estaria diretamente relacionada ao surgimento de próte-ses espaciais das teleuniversidades dotadas de uma intencionalidade vinculada a capacidade de redirecionar ou de transformar as concepções de tempo e espaço culturalmente aceitas. Acreditamos que algumas idéias aqui expostas merecem um aprofundamento teórico e empírico como forma de permitir um melhor entendimento das modificações contemporâneas promovidas pela apropriação das novas tecnologias, por um grupo hegemônico, e suas conseqüências.

CONCLUSÃO

A EAD “on line” ou semi-“on line” representa bem o mundo de hoje, no que se refere a sua dinâmica espacial. O espaço encontra-se cada vez mais fluido e de mobilidade territorial acelerada. Vivemos a época das infovias, das infografias e do transporte virtual de sons e imagens através da INTERNET, que vem se confirmando como instrumento de grande destaque nos cursos de Educação a Distância.

De acordo com HARVEY ( 1993 ) o atual regime de acumulação flexível acompa-nhado do pós-modernismo no âmbito cultural corresponde a um processo de com-pressão do espaço-tempo que tudo aproxima. A EAD dentro do aparecimento do regime de acumulação flexível assume novo contorno e significado, já que a evolu-ção do modo de produção capitalista coloca os conceitos de espaço e de tempo em constante modificação.

O discurso que os defensores da EAD incorporam, nos dias atuais, é o de eliminar as barreiras espaciais. Esse fato permitiria a um número maior de pessoas o acesso à educação, caracterizando a democratização do ensino. Esse discurso celebra e confirma o espaço visto como distância, ou seja, como mera categoria do tempo. Esse tipo de visão, principalmente na educação, dificulta a possibilidade de se al-cançar a cidadania plena. É necessário trabalhar uma concepção de espaço que vislumbre a idéia de sua construção histórica, para que o educando posssa tornar-se um “usador” na construção do processo de ensino e não apenas o usuário de um modelo constituído por técnicos e burocratas. Alguns autores ( SANTOS, 2000 ) criticam o mito do espaço e do tempo contraídos graças a velocidade. Isso não se constitui em uma realidade para todos. A velocidade estaria ao alcance de um número limitado de pessoas, de acordo com as possibilidades de cada um, onde as distâncias possuem significados e efeitos diferenciados. Dessa forma, a EAD pode contribuir para acentuar a exclusão social e não para reverter essa situação.

O espaço não é passivo, não é apenas um receptáculo. Ele não é apenas estrutura-do pela sociedade, mas também estruturador dessa sociedade - efeito e causa. Ca-so o espaço seja visto apenas como distância, não será possível entendê-lo como estrutura e estruturador da sociedade. Como compreender a estrutura de classes da sociedade nos bairros ricos e pobres não levando em consideração o espaço en-quanto categoria histórica ?

Para um modelo de ensino que se pretende democrático é necessário que as con-cepções de tempo e de espaço, possam ser trabalhadas na sua interdependência, aproximando-se do hibridismo. O espaço como distância, o espaço virtual, o espaço das qualidades sensíveis – ligados as individualidades dos estudantes - , o tempo cronométrico, o tempo real e o tempo das qualidades sensíveis devem ser pensados e articulados de forma integrada. As NTIC permitem a possibilidade de se pensar esse projeto de distintas realidades e especificidades, de forma integradora e aglutinadora desde que direcionadas para essa finalidade.

Para Santos ( 2000 ), as vantagens do chamado tempo real para a maioria da hu-manidade não ocorre. As promessas de que as técnicas modernas possam melhorar a vida de todos caem por terra e o que se observa é a expansão da escassez atingindo a classe média e criando mais pobres. É necessário se pensar um projeto para a EAD que não reproduza esses mecanismos que levam a exclusão e a desigualdade e sim que viabilize uma educação realmente integradora, democrática e participativa para que a mesma não seja a reprodução do ensino presencial mediado pelas NTIC. De acordo com FOUCAULT ( 1979 ) esse processo pode ser compreendido como um novo microespaço criado de acordo com as intencionalidades da sociedade burguesa.

Segundo Debray, R. 1994:

A industrialização da imagem e do som confere aos
países superdesenvolvidos o monopólio das representações
culturais da humanidade, de tal modo que o norte voltou a
a ganhar de um lado a exclusividade que tinha perdido do
outro. Sem dúvida, a nova ecologia do olhar abre o campo
de visão de cada um de nós, mas torna mais problemático
o “diálogo da culturas”, ampliando mais do que nunca o
fosso entre ricos e pobres. p. 57

A sociedade se organiza espacialmente. Sendo assim a EAD, da forma como se encaminha, não vai ajudar a elucidar o papel que o aluno desempenha na sociedade e como ela se encontra organizada. A EAD reproduz o pensamento do espaço visto enquanto geometria lógica, que se contrai cada vez mais com o avanço das NTIC. Apresenta-se como algo “distante” das pessoas, com uma forte tendência a impessoalidade e desprovido de mecanismos que levem a motivação e ao interesse, principalmente em cursos de longa duração. A visão da EAD que trabalha a concepção de espaço como mera categoria do tempo pode levar a uma aproximação aos ideais do mercado e não a uma idéia mais ampla da modificação da sociedade para atender os interesses da coletividade.

Os valores atribuídos ao espaço devem, pela lógica capitalista, ser reproduzidos no âmbito cultural, social, político e científico. A EAD parece ser um mecanismo eficiente para essa finalidade e isso é inadmissível no que se refere ao papel que a educação deve desempenhar na sociedade. Essa situação torna-se ainda mais grave, na medida em que a mesma possui reais possibilidades de ser utilizada em benefício das coletividades, a partir de seu imenso potencial democrático. A Internet é mais democrática do que os demais meios de comunicação, pois a mesma possibilita a inserção de informações sem uma censura prévia e sem a necessidade de se pagar para inserir a informação. Se pudermos e soubermos utilizá-la, essa tecnologia pode constituir um importante mecanismo na busca de uma sociedade menos desigual. Para isso, o ensino a distância deve ser orientado e redirecionado para permitir a apropriação da tecnologia em direção aos interesses da coletividade e não de um grupo específico de atores. A tecnologia deve ser utilizada para os objetivos dos interesses do cidadão, elevando suas capacidades de inserção na sociedade, conferindo-lhe qualidades, como a capacidade de orientar a tecnologia para uma melhor compreensão do mundo em que vivemos.

Para tentarmos concluir é possível citar o CEDERJ, no estado do Rio de Janeiro, como exemplo do fenômeno anteriormente descrito. Essa fundação oferece cursos de graduação e de extensão a distância. O interesse inicial da criação dessa funda-ção, criada pelo governo do estado do Rio de Janeiro em parceria com várias prefei-turas e com as universidades públicas sediadas no estado, era o de suplantar a ca-pacidade de oferta de vagas no ensino superior presencial das universidades esta-duais do Rio de Janeiro – UERJ ( Universidade Estadual do Rio de Janeiro ) e UENF ( Universidade Estadual do Norte Fluminense ). Foi uma tentativa de aumentar a produtividade do espaço sob o ponto de vista da educação. Após 4 anos de existência, a universidade a distância do estado do Rio de Janeiro não conseguiu oferecer esse grande quantitativo de vagas e a necessidade de grandes investimentos diminuiu a velocidade da oferta de novos cursos. Essa situação demonstra que o ensino a distância necessita de um forte investimento em qualidade e produção de materiais, muitas vezes superior ao ensino presencial. Essa é uma boa perspectiva para modificar o olhar sobre a EAD, no que se refere a suposta qualidade dos cursos oferecidos, demonstrando que a mesma não desenvolve-se como forma de suplantar ou substituir os cursos e as universidades presenciais e sim para desenvolver uma nova forma de ensinar e aprender, que ainda não se revelou em sua plenitude.

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BIBLIOGRAFIA

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FOCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: graal, 1979.

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LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: 34, 1999.

________ As tecnologias da inteligência: O futuro do pensamento na era da informática. São Paulo, 34, 1993.

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LUCKESI, Cipriano C. Democratização da educação: ensino à distância como alter-nativa. Tecnologia Educacional., v. 18, n° 89/90/91, p. 9-18, jul./dez. 1989.

MOREIRA, Ruy. A pós-modernidade e o mundo globalizado do trabalho. Revista Paranaense de Geografia., v.02, n° 02, p.48 – 57, 1997.

_________ Desregulação e Remonte no Espaço Geográfico Globalizado, In Revista Ciência Geográfica, v. IV, n° 10, AGB-Bauru, 1998.

_________ Globalização e Neoliberalismo. Cadernos Geográficos, v. 08, Belo Hori-zonte, 1998.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. Rio de Janeiro: Record, 2000.

www.cederj.rj.gov.br/Conheca/proj_ped.htm. Portal do Centro de Educação a Dis-tância do Estado do Rio de Janeiro. Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia.

http://www.abed.org.br/congresso2004/por/htm/013-TC-A2.htm

LEVY e Castells, apontamentos:
2. Organizações virtuais e redes organizacionais

As organizações de quaisquer tipos, como parte integrante da sociedade, foram grandemente afetadas pelas novas tecnologias da informação e da comunicação. Novas lógicas organizacionais caracterizam a economia informacional, novas formas de organizar e executar o trabalho, surgiram e desenvolvem-se em larga escala.

Para CASTELLS (1999, p.174) é a "convergência e a interação entre um novo para-digma tecnológico e uma nova lógica organizacional que constituem o fundamento da economia informacional". Compreendendo lógica organizacional como "as bases ideacionais para as relações de autoridades institucionalizadas". Ou seja, sob sua perspectiva, "o surgimento da economia informacional caracteriza-se pelo desenvolvimento de uma nova lógica organizacional que está relacionada com o processo atual de transformação tecnológica, mas não depende dele".

A nova lógica organizacional é fruto da reorganização das relações produtivas, eco-nômicas e de trabalho que vêm ocorrendo no mundo a partir de meados do século XX e é conseqüência da evolução da sociedade, ampliação dos mercados em nível mundial e, também, introdução das novas tecnologias informáticas. São movimentos paralelos que interagem na construção de uma realidade em mutação.

Estes processos culminaram em mudanças nos sistemas organizacionais e produtivos e na própria concepção da organização, ocorre uma desintegração dos modelos verticais e hierarquizados tradicionais em busca de maior flexibilidade. As estruturas empresariais se reorganizam em redes de empresas, os processos produtivos se fragmentam, se descentralizam sem perder a unicidade. Em alguns casos, a própria estrutura física dá lugar a estruturas virtuais, a "sede própria" deixa de existir. Nas palavras de CASTELLS (1999, p.187) estamos assistindo "ao processo de transformação das organizações e ao processo de desintegração do modelo organizacional de burocracias racionais e verticais, típicas da grande empresa sob as condições de produção padronizada em massa e mercados oligopolistas". São novas as perspectivas.

A empresa em rede ou rede organizacional é a forma organizacional da economia informacional, afirma CASTELLS (1999, p. 191) e complementa:

Essa atuação parece estar de acordo com as características da economia informaci-onal: organizações bem-sucedidas são aquelas capazes de gerar conhecimentos e processar informações com eficiência, adaptar-se à geometria variável da economia global, ser flexível o suficiente para transformar seus meios tão rapidamente quanto mudam os objetivos sob o impacto da rápida transformação cultural, tecnológica e institucional, e inovar, já que a inovação torna-se a principal arma competitiva.

Reorganizar, descentralizar, buscar agilidade, flexibilidade, valorização dos talentos individuais como forma de renovação constante e competitividade, são os motivos que impulsionaram as organizações a transformarem-se. Transformação essa que foi favorecida pelas novas tecnologias da informação e da comunicação. A empresa em rede é o modelo ideal, pelo menos por enquanto, que permite a adaptação às condições de imprevisibilidade proporcionadas pelas mudanças econômicas e tecnológicas mundiais.

A empresa deixa de ser vertical e burocratizada para buscar modelos mais ágeis na horizontalização de suas estruturas. Procura transformar-se em uma rede "dinâmica e estratégicamente planejada de unidades autoprogramadas e autocomandadas com base na descentralização, participação e coordenação" (CASTELLS, 1999, p. 187).

Com relação à virtualização das organizações, LEVY (1999, p. 49) cita:

Contudo, apenas as particularidades técnicas do ciberespaço permitem que os membros de um grupo humano (que podem ser tantos quantos se quiser) se coor-denem, cooperem, alimentem e consultem uma memória comum, e isto quase em tempo real, apesar da distribuição geográfica e da diferença de horários. O que nos conduz diretamente à virtualização das organizações que, com a ajuda das ferra-mentas da cibercultura, tornam-se cada vez menos dependentes de lugares deter-minados, de horários, de trabalhos fixos e de planejamentos em longo prazo.

Não concordamos com relação à "tornam-se cada vez menos dependentes...de pla-nejamento em longo prazo", porque compreendemos que a organização, virtual ou não, não deve prescindir de processos elaborados de planejamento, preferimos a perspectiva de Castells com relação à organização como "uma rede estratégicamente planejada".

Assim, segundo CASTELLS (1999, p. 191) uma empresa em rede é definida como:

Aquela forma específica de empresa cujo sistema de meios é constituído pela inter-secção de segmentos de sistemas autônomos de objetivos. Assim, os componentes da rede tanto são autônomos quanto dependentes em relação à rede e podem ser uma parte de outras redes e, portanto, de outros sistemas de meios destinados a outros objetivos.

Organizar-se em rede pode compreender uma descentralização geográfica, no en-tanto, não implica em descentralização do processo decisório ou de planejamento estratégico. A organização da empresa em forma de rede pode conferir maior auto-nomia a certos departamentos, agiliza e flexibiliza processos, pode oferecer econo-mia, mas o planejamento estratégico global da organização/empresa, que continua sendo una apesar de descentralizada, deve ainda estar subordinado aos membros diretores da organização. Não se pode prescindir de diretrizes estratégicas que favo-reçam o alcance dos objetivos organizacionais.

Na literatura consultada vemos repetidamente o termo empresa em rede ou rede de empresas. Paralelo a estes e muitas vezes adotado como sinônimo encontramos também o termo organização virtual, definido por vários autores de formas ligeira-mente diferentes. Na tabela 3 estão indicadas algumas destas definições:

Tabela 3
Definições de organização virtual

Definições referentes ao termo organização virtual segundo diversos autores.

A maioria das definições refere-se à organização virtual como sendo várias organi-zações diferentes, que se associam em prol de somar ou complementar suas com-petências, podendo até ter objetivos individuais diferentes, mas que adotam uma união sinérgica e benéfica para todas as organizações envolvidas. Outras se referem a uma empresa que está parcialmente inserida no ciberespaço. Adota-se aqui a perspectiva de CASTELLS (1999, p. 191) quanto à empresa em rede, porém constata-se que para o termo organização virtual existem três possibilidades:

(1) a organização virtual é uma organização coesa, sob uma única razão social, que se virtualiza, no sentido de deixar de ter unidade física, existindo somente no cibe-respaço e cujos membros estão descentralizados geograficamente mas unidos por objetivos ou interesses em comum;

(2) a organização virtual é formada por um grupo de organizações sob a mesma razão social ou pertencentes ao mesmo grupo empresarial, e que se utilizam das novas tecnologias da informação e da comunicação para descentralizar sua estrutura burocrática, agilizar processos e favorecer a cooperação e trâmite de informações entre cada empresa do grupo;

(3) a organização virtual, e aí é melhor se classificarmos de rede organizacional, é formada por várias organizações independentes entre si que se unem, temporaria-mente ou não, para unir competências e alcançarem seus objetivos individuais e coletivos;

Faz-se necessário estabelecer uma diferenciação coerente e efetiva, já que na literatura consultada existe uma certa confusão dos termos, como indicado na tabela 3. Propomos as seguintes definições:

Organização virtual: uma organização, com ou sem fins lucrativos, de qualquer setor da economia, que existe somente no ciberespaço, sem unidade física, que faz uso das tecnologias de informação e da comunicação para interagir e conduzir seus negócios.
Rede Organizacional (ou Rede virtual de organizações): (1) conjunto de organiza-ções, sejam elas virtuais ou não, independentes entre si, que se unem, temporaria-mente ou não, e se utilizam das tecnologias da informação e da comunicação para estabelecer uma ligação sinérgica, compartilharem competências, custos, recursos humanos ou outros, que lhes permitam sobreviver e competir, de uma forma que, sozinhas, as organizações não seriam capazes.

Qualquer outro tipo de organização, pode utilizar as novas tecnologias da informa-ção e da comunicação para melhorar seus processos administrativos, estabelecer relações através de intranet ou extranet, somar recursos, etc. Pode informatizar seus processos de comunicação e troca de informações, pode estar presente no ciberespaço, mas não é uma organização virtual podendo ser classificada como uma organização virtualizada.

Uma organização vitualizada, proposta encontrada em VENKATRAMAN e HENDERSON (1998, p. 40) apud DI AGUSTINI (2005), é aquela em que podemos identificar graus de virtualidade organizacional, ou seja, o quanto uma organização está virtualizada pode variar de 0% (nenhum grau de virtualização) até 99% (total-mente virtual). Os autores relacionam "Indicadores da virtualidade organizacional", demonstrados no quadro abaixo:

Quadro 1
Indicadores da virtualidade organizacional (1)
Perspectivas dominantes sobre organizações virtuais

Adaptado de Venkatraman e Henderson (1998, p. 40) apud Di Agustini (2005)

A organização é tradicional, conta com estrutura física, porém pode ir, gradualmente, mudando departamentos, serviços e estruturas diversas, tornando-os cada vez mais executáveis em ambiente web e cada vez menos físicos, ou executar certos processos somente através das novas tecnologias, como acontece com alguns serviços de várias organizações. A organização pode ainda utilizar as técnicas de internet e informática como ferramentas de comunicação mercadológica ou institucional. Assim, a organização por ir virtualizando-se gradualmente. A esta organização preferimos chamar de organização virtualizada para diferenciá-la do termo organização virtual.
http://www.comunicacaoempresarial.com.br/rev3artigoNanciMazziero.htm


Artigos Pierre Lévy

A EMERGÊNCIA DO CYBERSPACE E AS MUTAÇÕES CULTURAIS
Pierre Lévy

O que seria o espaço cibernético? O espaço cibernético é um terreno onde está fun-cionando a humanidade, hoje. É um novo espaço de interação humana que já tem uma importância enorme sobretudo no plano econômico e científico e, certamente, essa importância vai ampliar-se e vai estender-se a vários outros campos, como por exemplo na Pedagogia, Estética, Arte e Política. O espaço cibernético é a instaura-ção de uma rede de todas as memórias informatizadas e de todos os computadores. Atualmente, temos cada vez mais conservados, sob forma numérica e registrados na memória do computador, textos, imagens e músicas produzidos por computador. Então, a esfera da comunicação e da informação está se transformando numa esfera informatizada. O interesse é pensar qual o significado cultural disso. Com o espaço cibernético temos uma ferramenta de comunicação muito diferente da mídia clássica, porque é nesse espaço que todas as mensagens se tornam interativas, ganham uma plasticidade e têm uma possibilidade de metamorfose imediata. E aí, a partir do momento que se tem o acesso a isso, cada pessoa pode se tornar uma emissora, o que obviamente não é o caso de uma mídia como a imprensa ou a televisão. Então, daria para a gente fazer uma tipologia rápida dos dispositivos de comunicação onde há um tipo em que não há interatividade porque tem um centro emissor e uma multiplicidade de receptores. Esse primeiro dispositivo chama-se Um e Todo.

Uma outra versão é o tipo Um e Um, que não tem uma emergência do coletivo da comunicação, como é o caso do telefone. O espaço cibernético introduz o terceiro tipo, com um novo tipo de interação que a gente poderia chamar de Todos e Todos, que é a emergência de uma inteligência coletiva. Do interior do espaço cibernético encontramos uma variedade de ferramentas, de dispositivos, de tecnologias intelec-tuais. Por exemplo, um aspecto que se desenvolve cada vez mais, nesse momento, é a inteligência artificial. Há também os hipertextos, os multimídia interativos, simulações, mundos virtuais, dispositivos de tele-presença. É preciso não esquecer, por outro lado, que a própria mídia hoje está numa hibridação com o espaço cibernético, onde ela se vê obrigada a se abrir para isto... Mas, o que há de comum entre todas essas tecnologias, entre todas essas formas de mensagens? O que implica uma mensagem numerada e os outros tipos de mensagens? Uma mensagem numeralizada se caracteriza pelo fato de que se pode controlar essa estrutura de perto e de maneira muito fina. Então, os bits da informática são como gens na genética, isto é, a microestrutura. Fazem parte de um conjunto de tecnologia e vão em direção a um controle molecular de seu objeto, o que dá uma fluidez a todas essas mensagens e lhes dá também a possibilidade de uma circulação muito rápida. O que há em comum em todas as bases nos bancos de dados do espaço cibernético? Não são as mensagens fixas, mas um potencial de mensagens e que, dependendo de quem vai utilizá-los, vai para uma direção ou outra. O que acontece é que, com isso, se recupera a possibilidade de ligação com um contexto que tinha desaparecido com a escrita e com todos os suportes estáticos de formação. É possível através disso reencontrar uma comunicação viva da oralidade, só que, evidentemente, de uma maneira infinitamente mais ampliada e complexificada. Por exemplo, é isto que observamos com o que acontece, hoje, com o hipertexto ou multimídia interativa. O importante é que a informação esteja sob forma de rede e não tanto a mensagem porque esta já existia numa enciclopédia ou dicionário.

Portanto, a verdadeira mutação se passa noutros aspectos. Em primeiro lugar, não é mais o leitor que vai se deslocar diante do texto, mas é o texto que, como um caleidoscópio, vai se dobrar e se desdobrar diferentemente diante de cada leitor. O segundo ponto é que tanto a escrita como a leitura vão mudar o seu papel, porque o próprio leitor vai participar da mensagem na medida em que ele não vai estar ape-nas ligado a um aspecto. O leitor passa a participar da própria redação do texto à medida que ele não está mais na posição passiva diante de um texto estático, uma vez que ele tem diante de si não uma mensagem estática, mas um potencial de mensagem. Então, o espaço cibernético introduz a idéia de que toda leitura é uma escrita em potencial. O terceiro ponto que, sem dúvida, é o mais importante, é que estamos assistindo uma desterritorialização dos textos, das mensagens, enfim, de tudo o que é documento: tanto o texto como mensagem se tornam uma matéria.

Assim como se diz “tem areia”, “tem água” se diz “tem textos”, “tem mensagens” pois eles se tornam matérias como se fossem fluxos justamente porque o suporte deles não é fixo, porque no seio do espaço cibernético qualquer elemento tem a possibili-dade de interação com qualquer outro elemento presente. Então, isso não é uma utopia daqueles que experimentaram, conhecem e participam da Internet. É como se todos os textos fizessem parte de um texto, só que é o hipertexto, um autor coletivo e que está em transformação permanente. É como se todas as músicas passassem a fazer parte de uma mesma polifonia virtual e potencial, como se todas as músicas fizessem parte de uma só música, também ela virtual e potencial. Acredito que o texto não vai absolutamente desaparecer com a informatização. O que vai desaparecer é a noção de página, porque na etimologia a página se refere a um campo e um campo com proprietário, com fronteiras delimitadas . Esta página com o campo circunscrito está desaparecendo uma vez que os elementos que a compõem navegam nos fluxos.
O espaço cibernético envolve, portanto, dois fenômenos que estão acontecendo ao mesmo tempo: a numerizaqção que implica essa plasticidade de potencial de todas as mensagens seria o primeiro aspecto e o fato de que as mensagens potenciais são postas em rede e fluxo é o segundo fenômeno.

Desta forma, o espaço cibernético está se tornando um lugar essencial, um futuro próximo de comunicação humana e de pensamento humano. O que isso vai se tornar em termos culturais e políticos permanece completamente em aberto, mas, com certeza, dá para ver que isso vai ter implicações muito importantes no campo da educação, do trabalho, da vida política, das questões dos direitos, como por exemplo, no direito de propriedade. Hoje não se pode ter um projeto técnico se você não tiver uma visão cultural organizadora desse projeto, assim como não se pode ter um projeto cultural sem incluir a técnica. Por isto, é difícil estar distinguindo essas dimensões sociais, culturais e técnicas.

O espaço cibernético se encontra também na origem de uma nova arquitetura, de um novo urbanismo. Poderíamos até dizer de uma nova política porque se trata de uma nova pólis que está se constituindo. É assim que pedagogos, artistas, psicólo-gos, etc, que geralmente não se interessavam por fenômenos técnicos tem passado a se preocupar com estes problemas. O novo equipamento coletivo de sensibilidade, de inteligência, de relação social está, de fato, nascendo em silêncio. Trata-se de um equipamento coletivo de subjetivação. Para falar do critério de escolha em relação a essa questão da técnica, o critério que este novo equipamento propõe é um critério de escolha ética e política.

O interessante nas possibilidades que se abrem com a emergência de uma nova inteligência a partir disto é que se trata de uma inteligência coletiva, ou seja, esta-mos na direção de uma potencialização da sensibilidade, da percepção, do pensa-mento, da imaginação e isso tudo graças a essas novas formas de cooperação e coordenação em tempo real. Trata-se de equipamentos que podem ajudar o apren-dizado e a aquisição de saberes. Então, o inimigo necessário de ser evitado é o iso-lamento, a separação. É preciso pensar em equipamentos de comunicação que, ao invés de fazer uma difusão como a mídia tradicional (difusão de uma mensagem por toda parte), faz com que esses dispositivos estejam à escuta e restituam toda a diversidade do presente no social. Uma outra coisa que é possível explorar é o fato de que estes equipamentos favorecem a emergência da autonomia, tanto de indivíduos quanto de grupos, onde o inimigo é a dependência.

É preciso imaginar, então, que a partir desses sistemas de comunicação quanto mais eles sejam utilizados mais eles se aperfeiçoam, se desenvolvem, ficam melhores. O que acontece hoje é o contrário: as informações vão se degladiando e cada um fica perdido nessa massa de informações. Com as redes, podemos pensar equipamentos de tecnologia que possam permitir que cada um se beneficie dessa inteligência.
Eu vou colocar alguns exemplos em campos diferentes, como a semiótica, epistemologia, artes e política. Começando pela semiótica eu vou propor um exercício de pensamento. Suponhamos que a gente dispõe de todos esses equipamentos atuais mas não se tem uma escrita alfabética, por exemplo. Vamos imaginar que fosse preciso inventar uma escrita não dispondo da escrita alfabética e sim dispondo de todos esses equipamentos. Seria uma escrita alfabética o que inventaríamos? Eu acho que não, porque a escrita alfabética serve par anotar o som. Hoje, a gente tem infinitos meios de gravar o som e não precisamos mais de uma escrita alfabética. Mas há também escritas que vão colocar conceitos ou idéias como é o caso dos ideogramas chineses ou as escritas matemáticas.

Quando o alfabeto foi inventado só se dispunha de suportes fixos e, no entanto, agora dispomos de suportes de outro tipo. Eu acho que a gente está longe de ter explorado o que essa variedade de novos suportes permite. O que se costuma fazer é produzir imagens na multimídia que tem a ver com o suporte estático anterior. Hoje, por outro lado, se poderia estar inventando o que se chama de ideografia dinâmica, que explora completamente a inteligência e o caráter dinâmicos desses novos suportes, constituindo-se numa introdução a modelos mentais com toda sua plasticidade e dinamismo. Isso se encontra nos jogos de vídeo, que é o começo de uma linguagem animada. Mesmo quando o conteúdo cultural dos jogos de vídeo não seja extraordinário há, sem dúvida, um potencial muito interessante. A partir desse modelo a gente vê surgir novas formas de conhecimento por simulação que é muito diferente do estilo teórico hermenêutico que se apóia no estático, na verdade universal e em critérios de objetividade. Os novos critérios têm, ao contrário, a capacidade de mudar em função do contexto local. Quanto ao aspecto epistemológico algo interessante também acontece. Em linhas gerais, podemos dizer que a humanidade desenvolveu quatro ideais ou tipos de relação com o saber. Antes da escrita, o saber era ritual, místico e encarnado por uma comunidade viva. Tem um ditado africano que diz que quando um velho morre é uma biblioteca que pega fogo, que se incendia. Temos um segundo tipo ideal de relação com o saber que é o ligado à escrita, o saber trazido pelo livro. Em geral é um livro único suposto a conter tudo, como por exemplo, a Bíblia. Aí a figura do conhecimento não é mais o velho, mas o comentador, o intérprete.
Com o advento da imprensa, há um novo tipo ideal que não é mais o livro mas a biblioteca. Como vocês sabem as enciclopédias do século XVIII, na França, já eram verdadeiras bibliotecas porque eram volumes e mais volumes. Cada palavra, cada tema remetia um a outro e, assim, já era uma espécie de hipertexto, cuja navegação na biblioteca já era muito diferente do que o livro. Do comentador e intérprete pas-samos à figura do sábio ou erudito.

Hoje, entretanto, estamos assistindo à desterritorialização da biblioteca. É como se estivéssemos voltando às origens, onde o portador do saber era a comunidade viva, claro que de uma forma muito mais ampliada e diferenciada. Atualmente, o hipertexto não consegue conter a velocidade com que circula a informação. Como a informação é fluxo é como se o coletivo novamente fosse portador do conhecimento.

Então, o novo portador do saber no nosso novo horizonte seria a própria humanida-de. Estamos falando não da humanidade no sentido genérico mas de uma humanidade viva enquanto espaço cibernético. O espaço cibernético aqui é entendido como esse espaço virtual onde a comunidade conhece a si mesma e conhece seu próprio mundo, porque são duas faces da mesma coisa. Não se trata mais de uma enciclopédia mas de uma espécie de plasmopédia, isto é, um espaço de saber vivo e dinâmico (para quem teve a oportunidade de conhecer o projeto das árvores de conhecimento que eu apresentei ontem, é justamente essa perspectiva que se encontra aí exemplificada).
Eu vou concluir com algumas observações no campo político. A configuração domi-nante da esfera política hoje é a mídia com essa estrutura triangular - mídia, sonda-gens, eleição - onde cada ponto reforça ao outro. As pesquisas reforçam a mídia, a mídia reforça as pesquisas, que reforça a eleição e por aí vai, numa estrutura fecha-da a três. É uma espécie de estrutura em estrela onde se tem um centro, que parte lá de cima e depois uma periferia na base.

Desta forma, as questões que são colocadas nestas pesquisas para a eleição já chegam prontas e aquele que responde tem a possibilidade de pensar e se colocar, dizendo sim ou não. O outro elemento do triângulo é o das eleições, onde eu voto como representante, onde cada pessoa que vota participa de uma balança e o voto vai ajudar a balança a pender para um ou outro lado. O que se faz, nestes casos, é utilizar uma espécie de poder de massa para que uma ou outra pessoa, um ou outro programa chegue ao poder. Para isto, não se utiliza praticamente nada no sentido de trabalhar a imaginação e a inteligência das pessoas.

Então, não se tem o majoritário mas, por outro lado, a singularidade é algo que é apagada. Hoje, com a emergência do espaço cibernético podemos imaginar a emergência da imaginação e da inteligência das pessoas de uma outra forma, onde as pessoas não vão estar separadas entre si e ligadas todas em relação ao centro, mas onde serão multiplicadas as conexões transversais entre eles. E, nesse espaço de elaboração e decisão política, poderão se constituir maiorias e minorias diferentes para cada problema: cada problema vai constituir uma maioria e uma minoria. Aí, o pertencimento político não vai remeter a uma categoria massiva, a priori. Ele vai dizer respeito a uma configuração singular dentro de uma geografia de problemas limitada e construída permanentemente pela própria coletividade.

Temos, portanto os meios de restauração de uma democracia direta e em grande escala, porque, até agora, a democracia direta só podia funcionar em pequena escala, fazendo com que para milhares de pessoas espalhadas em territórios mais distantes não fossem envolvidas. Com o uso de novos instrumentos técnicos dá para fazer uma democracia direta distinta do sistema de representação (cuja organização política remete a um centro de decisão e que está completamente obsoleta na medida em que é tecnicamente obsoleto que as decisões sejam centralizadas).


Palestra realizada no Festival Usina de Arte e Cultura, promovido pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre, em Outubro, 1994. Tradução: Suely Rolnik. Revisão da tradução transcrita: João Batista Francisco e Carmem Oliveira.
Outros textos disponíveis em http://www1.portoweb.com.br/pierrelevy/aemergen.html

Um comentário:

E e J disse...

Levy apresenta muitas contibuições sobre Tecnologias e EAD...
O que você pensa sobre isto?